Alto Vale
Foto: Divulgação

Helena Marquardt/DAV

Natale Coral ficou conhecido por exterminar milhares de indígenas de Santa Catarina durante a colonização de diversas terras no estado. O “bugreiro” como era chamado na época ganhou fama pela crueldade com que cortava as orelhas dos índios e colocava na salmoura, prática que é relatada em histórias contadas pelos mais antigos e até alguns documentos do passado. No entanto, o homem que teria cometido um verdadeiro massacre acabou sendo homenageado em Nova Veneza, cidade da região Sul da qual foi colonizador. A homenagem gerou revolta no povo Xokleng da Terra Lalkãnõ, no Alto Vale do Itajaí, que já se organiza para ir até o município fazer um protesto.

O cacique presidente da Terra Laklãnõ, Nilton Ndili, comenta que na opinião dos povos indígenas homens como Martinho Bugreiro, Zé Domingo ou o próprio Natale Coral não podem ser homenageados. Ele alega ainda que os crimes que cometeram entre o fim do século XIX e início do século XX não devem jamais ser esquecidos. “Eles não são heróis, eles eram os vilões. Na época dos nossos antepassados esse era o território dos indígenas e houve uma grande matança feita pelo Natale Coral. Ele e os outros dois grupos vinham para fazer esse trabalho que era um verdadeiro massacre. Então é inaceitável que o homem que dizimou os indígenas e que arrancava a orelha dos mortos para levar para o chefe e comprovar o assassinato, seja hoje homenageado”, comenta.

A inauguração da praça com o nome de Natale Coral ocorreu em dezembro do ano passado para homenagear sua contribuição à formação da colônia. O local deveria receber ainda um memorial com duas rosas dos ventos e na parte superior, na posição vertical uma baliza topográfica em forma de flecha, que representaria o povo indígena que vivia na região.

“Ele matou centenas para construir uma cidade, mas a história não conta o que realmente aconteceu durante décadas com os indígenas. Levanta-se uma estátua a uma pessoa que massacrou nossos indígenas e que hoje é vista como protagonista, algo que jamais aceitaremos”, lamenta.

O cacique presidente ainda declarou que uma mobilização presencial deve ser feita em Nova Veneza na próxima semana. “Ainda não temos a data exata, mas estamos mobilizando lideranças regionais e iremos a Nova Veneza fazer esse manifesto pessoalmente. Também já estamos encaminhando ofícios para a Funai e Ministério Público para que fiquem cientes”, informa.

Num manifesto público a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), que é referência nacional do movimento indígena no país também comparou a matança em Santa Catarina a outros episódios tristes da humanidade. “É como se o Estado de Israel, que abriga hoje os judeus, homenageasse o assassino Adolf Hitler, nomeando uma cidade, estrada ou praça com o nome dele. Nosso coração se encheu de tristeza ao saber dessa praça que leva o nome de um matador da nossa gente: Natale Coral. Um homem que comandou grupos que violaram mulheres, mataram crianças, despedaçaram homens e lhes cortaram as orelhas para fazer colar. Não. O povo de Nova Veneza não pode compactuar com esse crime, que volta a se repetir nessa homenagem”, declarou a Apib.

A organização também afirmou que a etnia já aceitou a paz, mas pediu um basta em homenagens como a que aconteceu em Nova Veneza. “Nós, os Laklãnõ Xokleng, que ainda resistimos, apesar de todos os crimes, assassinatos e violações, há muito tempo aceitamos a paz. Já perdoamos os migrantes que vieram para essa terra, muitos deles enganados, e tomaram o nosso mundo. Perdoamos, mas não esquecemos. Todos os brasileiros têm direito à memória, à verdade e à justiça. Basta de homenagear aqueles que são responsáveis pela dor do próximo. Exigimos a retirada de qualquer homenagem aos assassinos de indígenas na cidade de Nova Veneza”, declarou a Apib

Em nota família diz que histórias são fantasiosas

Em uma declaração oficial emitida há alguns dias sobre uma nota de repúdio da Coordenação da Licenciatura Intercultural Indígena do Sul do Mata Atlântica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) a família de Coral declarou que os relatos sobre o massacre não são verdadeiros. “Natale Coral foi o agrimensor que traçou toda Colônia Nova Veneza, um grande homem do bem. Esses depoimentos maldosos, de inverdades não registram a história oficial […] Natale Coral desde 1891 viveu em Nova Veneza até 1911, viveu apenas 20 anos na “Colonia Nuova Venezia” quando faleceu com apenas 52 anos. Aqui teve seus 12 filhos, e muitos exemplos de obras sociais e religiosas, além de agrimensor, não deveria ser tratado com essas inverdades que são fantasias folclóricas” afirmou a família.