Alto Vale, Destaque, Especial

Natacha Santos

Enquanto a comunidade cobra do poder público uma saída efetiva para o problema crônico das enchentes na região do Alto Vale do Itajaí, alguns especialistas apontam que a solução pode estar na mudança de consciência. A adoção de práticas conservacionistas no manejo da terra na agricultura, como o plantio direto, pode reduzir drasticamente a ocorrência de inundações. É que a técnica permite que o solo absorva até 50% a mais de água da chuva comparada ao modelo convencional e ainda traz ganhos de 30% na produtividade da lavoura.

Apesar de Santa Catarina figurar sempre no topo quando o assunto é qualidade de vida, as estatísticas deixam a desejar quando se fala em manejo consciente do solo. Na prática, não há no estado esse tipo de orientação ou incentivo por parte do poder público ao homem do campo.

A reportagem conversou com algumas autoridades no assunto que garantem que a mudança de consciência é muito mais barato para o poder público. Eles afirmam que seria gasto muito menos dinheiro realizando orientações nas propriedades rurais, por exemplo, do que construindo barragens para tentar segurar a força da natureza. A prevenção lá na propriedade rural, onde se origina o problema é muito mais eficaz e barato do que tentar remediar um fenômeno que já está instalado.

Plantio direto pode reduzir em até 50% a perda de água

O professor Ildegardis Bertol, do curso de Agronomia do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV) da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), em Lages, é doutor em Ciência do Solo e atua há mais de 30 anos como professor na área de Manejo e Conservação do Solo e da Água. Com mais de 100 artigos científicos publicados em periódicos nacionais e internacionais, ele se prepara para lançar um livro sobre recomendação de práticas conservacionistas em sistema de manejo do solo através da semeadura direta.

Bertol mantém uma série de projetos de pesquisa, todos eles com o objetivo principal de avaliar a erosão hídrica ocasionada por chuvas em área de cultivo. São experimentos de longa duração, alguns deles com mais de 20 anos de coleta de dados com condições de chuva natural e outros em condição de chuva simulada. Todos eles têm o objetivo final de quantificar as perdas de água, perda de solo e também perdas de nutrientes de plantas causadas pela erosão hídrica.

Os principais manejos estudados pelo professor são o sistema de plantio direto, o convencional e o cultivo mínimo. O plantio direto é a técnica de semeadura na qual a semente é colocada no solo que não passa pelo processo de remoção e usa semeadeiras especiais. Uma pequena cova é aberta com profundidades e larguras suficientes para garantir a cobertura adequada e contato da semente com o solo. Os resultados de Bertol apontam que a técnica de plantio direto reduz de 80 a 90% da erosão do solo em relação ao sistema convencional de manejo. Já as perdas de água giram em torno de 40 e 50%. “Já é um avanço do ponto de vista de conservação do solo e da água”, avalia.

Um dos principais pontos observados na pesquisa do professor Bertol é que as águas que penetram no solo alimentam as nascentes e demoram muito mais tempo para chegar à calha do rio. “Ela vai ter que passar por dentro da terra ao invés de escoar pela superfície”, observa. Além disso, outra grande vantagem é o fato de que quando a água infiltra no solo, ela acaba sendo filtrada. “Se ela penetra no solo com uma carga de poluentes, por exemplo, ele poderá reter esses poluentes, armazenar e liberar essa água de maneira muito mais limpa. Ela chega à calha do rio já filtrada”. Em contrapartida, a água que corre pela superfície carrega consigo toda a carga de contaminantes que consegue juntar ao longo do trajeto pela qual escoa e chega à bacia carregada de poluentes.

O professor afirma que em Santa Catarina a adoção de práticas conservacionistas, que são mais responsáveis quanto ao escoamento da água, são muito pouco usadas. Na opinião de Bertol, a falta de orientação por parte do poder público é um dos motivos. “Não há como o agricultor contratar serviços para isso. Como é um trabalho que se reveste de importância ambiental e beneficia a população como um todo, inclusive a população urbana, eu acho que seria justo que o agricultor recebesse essa orientação via poder público para ele poder executar essas práticas que, a rigor, não vão beneficiar só ele, vão beneficiar a comunidade inteira”, garante.

Em Rio do Sul, o engenheiro agrônomo Maicon Fontanive começou a desenvolver um estudo parecido com o do professor Bertol, que também é seu orientador na tese de mestrado. O experimento fica na sede do Instituto Federal Catarinense (IFC), na Serra Canoas e já conta com cerca de um ano e meio de coleta de dados. No entanto, a instalação que foi feita é institucional e os dados serão coletados enquanto o experimento existir.
Fontenive observou que, na região do Alto Vale, o período de cheias é concentrado na mesma época de preparo do solo para o plantio. “O nosso estudo vem para nos dizer efetivamente se as cheias estão relacionadas à época de preparação do solo para o plantio convencional. Sabemos que a intensidade das chuvas é maior nesse período, entre setembro e outubro, que também é a época onde os agricultores estão trabalhando para o plantio”, diz.

gráfico

Os registros da prefeitura de Rio do Sul mostram que em um período de 103 anos (1911 a 2014), a maior parte das enchentes ocorreu no inverno e na primavera. Os dados mostram que 19 eventos aconteceram nos meses de junho, julho e agosto. Já na primavera, foram registradas 14 enchentes nos meses de setembro, outubro e novembro (confira o gráfico).

Mas o engenheiro ressalta que os dados de hidrologia requerem uma continuidade e um período longo de avaliação para ter respostas mais concretas sobre a relação das cheias com a época de plantio. “Para sair a fórmula mágica que calcula a erosão, são no mínimo 18 anos de estudo”.

Desde a época da escola aprendemos a relacionar a erosão com a perda de solo, mas existe a erosão da água, que também causa problemas. “É essa água que escorre e não fica armazenada no solo”, explica Fontenive. O engenheiro cita como exemplo um problema grave que aconteceu em 2008 em Blumenau. A grande enchente que atingiu o município naquele ano fez com que o milho apodrecesse na lavoura por causa do excesso de água. Cerca de dois meses depois que a cultura foi replantada, a plantação acabou morrendo por causa de uma seca. “Toda aquela água que não ficou armazenada faltou para a lavoura”, conclui.

Benefícios para a cidade e para o agricultor

Lá na roça do agricultor Valdenir Hoffmann, que tem 53 anos e herdou a profissão dos pais, o sistema de plantio direto foi adotado há 12 anos. E as diferenças são claramente perceptíveis até mesmo para os olhos mais leigos no assunto. No caminho até a propriedade de 12 hectares, no interior de Ituporanga, via-se nitidamente que os vizinhos, praticantes do sistema convencional, já acumulavam perdas na lavoura com as fortes chuvas que não deram trégua durante o mês de outubro. A Secretaria Municipal de Agricultura estima que os prejuízos no principal setor da economia ultrapassem a casa dos R$ 85 milhões.

Mas, lá na roça do seu Valdenir, como é mais conhecido na comunidade, muito pouco foi sentido. “Agora há pouco parou de chover, peguei o guarda-chuva e sai para dar uma olhada no que tinha acontecido. É aí que vemos a diferença”, comentou. Ele conta que costumava trabalhar com o sistema convencional de plantio, com o preparo do solo, mas sempre tinha a intenção de mudar. O projeto Microbacias, realizado por lá entre os anos de 1994 e 2000 é que semeou essa ideia. “Mas não tivemos o acompanhamento técnico. A vontade era de fazer, mas ninguém sabia como”. A partir de 2004 a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) começou a realizar esse trabalho diferenciado. “Daí para frente esquecemos o plantio convencional e partimos para o sistema direto”, comemora.

Dos 12 hectares de terra, oito são cultivados com cebola, fumo e milho, e o negócio funciona como uma empresa mesmo, até com planejamento estratégico de um ano para o outro. “Neste ano nós planejamos o que vamos plantar no ano que vem”, explica o agricultor. E, como em qualquer empresa, a redução de custos e aumento da produtividade é uma busca constante. Seu Valdenir garante que encontrou no sistema de plantio direto a solução para os seus problemas. “Nós tivemos muita redução de custo, uma porque não precisamos mais virar, picar e mexer na terra, só fazemos as linhas de plantio. Além disso, tudo o que a água levar se foi, e para repor custa dinheiro”, relata. E a produtividade também aumentou, já que as perdas na lavoura causadas pelas chuvas são poucas, quase nulas. Os ganhos de produtividade a cada colheita somam quase 30%.

Além de todo custo benefício, o sistema de plantio direto também trouxe outras vantagens para a família Hoffmann. Dona Zita, como a esposa do seu Valdonir é carinhosamente chamada pelos amigos, conta que já que o método requer planejamento, isso é discutido em família. “Cada ano é uma história, avaliamos o que podemos mudar e melhorar. E o custo-benefício são todos, desde esse diálogo com a família até a produção de um alimento mais saudável, mas, principalmente a redução da erosão”. A água que cai na roça dos Hoffmann penetra e fica armazenada com os nutrientes no solo. O pouco que não infiltra, corre limpa pelo canto da lavoura. “A planta vai vir mais saudável, vai precisar de menos química, menos agrotóxico. É uma forma de armazenar água no solo e não deixar com que ela leve a terra para o rio”. A consciência de que o sistema também ajuda nas questões ambientais faz parte da visão de dona Zita. “Eu penso muito nessas enchentes, além dos produtores perderem a terra, prejudica também quem mora lá na cidade”, decreta.

Apesar de todos os ganhos trazidos com o plantio direto, a maioria dos agricultores em Santa Catarina é relutante em adotar o método. Dos 20 produtores que aderiram ao sistema naquela ocasião, apenas seu Valdenir continua com a técnica. Na opinião dele, o fato de ter que planejar o plantio é o que acaba espantando o agricultor. “É mais fácil sentar no trator e deixar ele trabalhar sozinho do que planejar”, critica.

Já para dona Zita, um dos fatores do plantio direto não cair no gosto popular é o medo da mudança. Ela conta que no início da implantação da técnica aprendeu que a cultura convencional foi trazida para o Brasil com os europeus imigrantes. “Lá eles têm que remover o solo para quebrar o gelo e esquentar a terra para poder plantar. Isso veio de lá para cá. Agora eu vejo que o pessoal tem medo de mudar”. Mas a falta de incentivo também é um dos motivos determinantes. “A questão é de quebrar a mentalidade, que é a parte mais complicada. O pessoal tem que ter essa conscientização, mas também acho necessário algum incentivo por parte de políticas-públicas. Tendo um apoio maior, o sistema será aceito mais facilmente”, acrescenta.

O técnico da Epagri de Ituporanga, Claudinei Kurtz também acompanhou a visita à propriedade dos Hoffmann e explicou que um dos princípios do sistema de plantio direto é a rotação de culturas, essa é a razão pela qual o planejamento deve ser feito. “Se eles adotam o sistema e não fazem a rotação de cultura, você terá doenças ou alguns outros problemas na planta que frustra o produtor e ele acaba colocando a culpa no sistema”. Na opinião de Kutz, deveria haver um incentivo para que a técnica fosse mais trabalhada junto aos produtores. “Teria que ter mais técnicos trabalhando diretamente com os agricultores, ter incentivos como redução de juros em linhas de crédito ou outras formas de valorizar a pessoa que adota esse sistema de plantio. Por si só não vai ocorrer esse avanço, isso temos plena certeza”.

O sistema de plantio direto não beneficia apenas o produtor, mas a sociedade como um todo. Kurtz afirma que o agricultor que adota a técnica, no mínimo, dobra a capacidade de infiltração da água no solo. “Essa água vai armazenar no solo, alimentar o lençol freático e vai chegar em três ou quatro dias na bacia, porque a terra vai funcionar como um armazém. Toda a sociedade vai ganhar com isso, vai assorear menos o rio, menos enchente, é menos problemas para os municípios”.

Antes tarde do que nunca

m dos exemplos mais significativos sobre os benefícios da adoção de práticas conservacionistas no manejo do solo vem de São Paulo. Lá, desde 2000 o Estado trabalha com a aplicação da Lei de Uso e Conservação do Solo. A normativa disciplina do uso, conservação e preservação do solo agrícola.

Lá, quem cultiva a terra é obrigado a respeitar certas práticas conservacionistas para evitar a erosão. A legislação determina o que o agricultor pode fazer, quais os deveres e direitos de quem trabalha com o solo. A Lei prevê multa para quem não executa as práticas conservacionistas, mas a principal intenção é a conscientização das pessoas. Tanto é que mesmo se o agricultor for autuado, ele tem o direito de contratar um agrônomo, fazer um projeto técnico e executá-lo. Assim, a multa é cancelada. “Essa legislação é educativa, não é punitiva. Poucos casos chegam a esse caso de aplicação de multa”, explica Oswaldo Julio Vischi Filho, que trabalha na Coordenadoria de Defesa Agropecuária de São Paulo.

Na opinião de Filho, a crise hídrica pela qual o Estado de São Paulo passa desde 2014 era para ter acontecido há 10 anos. “Nós conseguimos atrasar crise hídrica com práticas conservacionistas que colocaram essas águas no lençol freático”, afirma categoricamente. O grande ‘pulo do gato’, segundo ele, é que na época das chuvas o excesso de água é infiltrado no solo. “Se não tivesse esse cuidado com o solo, esse excesso iria direto para os rios e isso causa a enchente”, explica. Essa água depois fica disponível por mais tempo no solo. “Na época da seca ela está lá para as plantas em maior quantidade. Traz benefícios tanto na época da seca quanto na época das chuvas”.

A conservação do solo é benéfica tanto para a agricultura quanto para os espaços urbanos. Na cidade ela pode ajudar a evitar enchentes e na agricultura ela ajuda a aumentar a produtividade das lavouras, produzindo mais alimentos. “Eu vejo a conservação do solo como uma maneira de diminuir a enchente causada por águas oriundas das áreas de agricultura. Isso é comprovado cientificamente”, garante Filho. “Uma bacia hidrográfica como o rio Itajaí-Açu, no Alto Vale de Itajaí, por exemplo, que tem a contribuição de vários rios, quando há a conservação do solo evita-se que o excesso de água vá para essa bacia. A água depois fica disponível na época de seca para manter as plantações”, exemplifica.

O Brasil é referência quando se fala em técnicas conservacionistas na agricultura e na pecuária. Os produtores têm uma das maiores áreas de plantio direto do mundo, com cerca de 25 milhões de hectares. A técnica começou a ser usada por agricultores brasileiros na década de 1970. A área com plantio direto no Brasil só fica atrás do espaço destinado na Argentina e nos Estados Unidos, segundo estimativa divulgada pela Federação Brasileira de Plantio Direto na Palha. Em todo o mundo são quase 117 milhões de hectares de terras mais férteis, solos mais ricos e de produtores mais satisfeitos e mais bem vistos também.