Alto Vale
Foto: Fábio Motta Agência O Globo

Rafaela Correa/DAV

Com o aumento de casos de covid-19 em todo o país, casos confirmados de variante do Amazonas no Alto Vale e UTI’s lotadas, as mortes em razão de complicações da doença aumentam dia após dia. Toda essa situação além de triste para familiares e amigos também causa medo em funcionários de funerárias. No Alto Vale mais de 230 óbitos foram registrados e quem trabalha no setor relata as dificuldades de lidar com o medo e acompanhar o desespero das famílias.

Marinilza Kuhl é de Ituporanga e trabalha há vários anos com o ramo de funerárias. Durante toda a pandemia ela relata que já atenderam quase 25 óbitos causados pela covid e que em todo esse tempo várias situações causaram preocupação. “Desde ir buscar a vítima da doença no hospital até o momento final no cemitério. Precisamos lidar com o medo de contrairmos a doença porque ficamos expostos ao vírus e por mais que a gente tome cuidado, a sensação é de medo mesmo porque também temos família, mas temos que fazer o nosso trabalho. Essa semana ligaram para fazer um relatório de nomes e ficar na espera pela distribuição de vacinas”, comenta.

Ela explica que os protocolos recomendados são todos seguidos e que eles trocam quatro vezes o EPI durante o processo. “Nós usamos quatro EPI’s a cada sepultamento. São dois no hospital e dois no cemitério e o álcool nos acompanha a todo momento”, esclarece.

Ela afirma que em todos os anos de profissão vários momentos foram de tristeza, mas que agora, com os óbitos da covid, a situação é diferente. “No hospital eles colocam dentro de um saco próprio para isso, nós vamos lá com o caixão colocamos dentro e não vai roupa, enfeite nada. As famílias chegam muito abaladas. Algumas aceitam, outras não, aí conversamos bastante com elas e acabam entendendo, mas é difícil lidar com isso, ver o sofrimento deles. O que mais marca é ver o quanto eles gostariam de dar um velório para os entes queridos, se despedir, só olha para a pessoa mais uma vez, mas infelizmente precisa ser caixão fechado”, lamenta.

Outra agente que atua em Taió e que não quis se identificar disse que não recorda quantos óbitos por covid a funerária em que trabalha já atendeu e garante que foi difícil explicar para as famílias o fato de que não podia haver velórios em alguns casos e principalmente o fato de os familiares não poderem ver o ente querido. “Nós seguimos protocolos e se a pessoa falecer antes de 21 dias internada não pode ocorrer velório, é direto do hospital para o cemitério. A pessoa vem dentro de um saco de remoção para não haver contato com os agentes. Para a família é horrível, nem ao menos podem se despedir. No começo da pandemia ocorreram muitos transtornos quando tivemos os primeiros casos e até hoje algumas pessoas não aceitam enterrar o familiar sem ao menos poder ver. No começo foi muito complicado, até nos adaptarmos a essa nova doença tivemos vários estresses”, conta. Ela afirma ainda que nesse período, ela e outra colega de trabalho pegaram a doença, mas que felizmente passaram bem e agora já receberam a primeira dose da vacina.

Questionada sobre momentos marcantes nesse período de trabalho, ela disse que todos são marcados por tristeza. “Todos os casos de covid geram um sentimento ruim, a família não pode fazer velório, prestar a última homenagem ou ver a pessoa pela última vez. A pessoa normalmente está internada há vários dias e acaba falecendo. A dor é muito grande”, finaliza.