Alto Vale
Foto: Joice Marquez/ Divulgação

Reportagem: Rafaela Correa/DAV

Agricultores de Ituporanga e Chapadão do Lageado estão com parte da produção de fumo guardada e não tem perspectiva de venda para este ano. Eles dizem que as empresas fumageiras com as quais negociam informaram que não comprarão o tabaco porque a estimativa já está completa, situação que preocupa fumicultores da região.

No Alto Vale muitas famílias trabalham com a produção de fumo. É o caso de Joice Lehmkuhl Marquez e Marciano Marquez, que moram na localidade de Barragem em Ituporanga e colaboram com a Souza Cruz. Na safra 2019/2020 eles plantaram 65 mil pés de fumo na expectativa de poder ter um bom retorno financeiro, mas não foi o que aconteceu. “A comercialização começou em fevereiro. No início não estavam pagando a classe desejada. Fumo do tipo BO1, CO1 passou como BO2, BO3, CO3. Só informaram que não queriam aquele tipo de fumo, que o produto era indesejado”, comentou.

Eles contam que a empresa não agendou uma data para o envio e que confiaram no início, mas a situação hoje é de indignação. “No início, a gente tentou vender para outras firmas, mas eles faziam chantagem. Diziam que se a gente vendesse não liberariam os insumos para a próxima plantação. Deixaram os agricultores trancados. Não pegaram o fumo e só avisaram que era para deixar guardado para o próximo ano”, contou.

A família de Joice trabalha com a agricultura há 20 anos e a única renda vem da agricultura. Agora eles estão com 60 fardos que equivalem a 250 arrobas de fumo no paiol. Além de não conseguir vender, os insumos da safra 2020/2021 já foram descontados da parte enviada. “A gente precisa se manter até ano que vem com esse dinheiro. Somos em quatro pessoas, estávamos construindo. Eles deveriam ter pegado essa sobra de fumo que ficou guardado como garantia da próxima, mas não descontar o valor do próximo pedido”, opina.

Se vendido, o valor a receber seria de mais de R$30 mil. Joice e Marciano contavam com o rendimento para fazer o pagamento de algumas dívidas e mão- de- obra para a produção do ano que vem. “A gente vive somente da agricultura, não temos outra fonte de renda. Trabalhamos debaixo de chuva, sol quente para no final passar por isso”, lamentou.

Na situação deles há outros agricultores na região. É o caso de Renato Passig e da esposa Daiana de Souza Passig que moram em Chapadão do Lageado. Eles também plantam para a Souza Cruz e ficaram preocupados com a venda, mas conseguiram escoar a produção na última semana. “Nós conseguimos fazer a venda na semana passada, mas se isso não tivesse acontecido ficariam 12 fardos. Eles não quiseram pegar além da estimativa, aí conseguimos uma vaga para enviar por outro município. Estava bem complicado”, explicou Daiana Souza Passig.

Quem depende de safra sabe das dificuldades climáticas. Independente do tipo de cultivo, os fenômenos da natureza como, ciclone, granizo, seca ou chuva podem prejudicar os rendimentos finais. Para essas pessoas, os fardos guardados representam mais do que dinheiro parado. Representam medo, já que em poucos minutos, meses de trabalho árduo podem ser jogados fora. “Nos dias de trovoada, todos ficam angustiados pensando que a chuva poderia molhar, ou o vento derrubar a construção. Mesmo com plásticos tampando tudo, a gente está correndo risco”, finaliza.

O Jornal Diário do Alto Vale tentou contato com a Souza Cruz por telefone, mas não conseguiu falar com nenhum representante. Até o fechamento da edição, não houve retorno.