Uma vez, lembro de reparar na minha mãe no verão e perceber nela as pernas e braços muitos flácidos. Ela tinha, na altura, quarenta anos. Eu apertei as minhas próprias coxas e desejei que elas jamais amolecessem tanto. Criei um pânico de me imaginar assim. Mas naquela época, quarenta anos era uma coisa longe demais que apenas deixava a gente com a pele mais mole. Ao pensar nisso, corri para a rua e me entretive em ser criança. Agora, volto a lembrar, porque hoje faço quarenta anos. Preciso repetir em voz alta, para acreditar. Mas é mesmo verdade, assim como a minha mãe e eu, temos também hoje a pele mais flácida. Mas agora, não penso na pele, o que mais me toca é que não vou receber dela o abraço, porque estou longe de casa. Ainda assim, gosto de pensar que quando estamos vivendo a nossa verdade com alegria, nos aproximamos de quem amamos, apesar da distância. Quando era menina, também gostava de rabiscar nos cadernos o nome do menino mais lindo do mundo. Era sempre Riquelme. E gostava de escrever o nome que batizaria as minhas filhas. Pensei que teria quatro meninas. A exemplo lá de casa, imaginava todos os nomes com a mesma letra. Tinha sequencia de várias delas. Com B, seria: Bruna, Bianca, Beatriz e Bárbara. Mas gostava muito de Betina, também. Tinha uma sequência de M que também era tentadora porque daria para batizar uma Martina. Hoje, se eu tivesse uma única filha, talvez se chamasse Madalena. Ou Ana. Quem sabe, Olga. Mas o fato é que talvez nunca a tenha. Até aqui, os caminhos foram diferentes e por conta disso, colecionei experiências maravilhosas que jamais poderia sonhar. Sou essa soma. Somos a soma de nossos dias. E o resultado é mais do que um número redondo. Aos quarenta, posso dizer que me sinto com energia para levantar da cama e dos dias menos efusivos. É cada pulo bom. Não sei se preciso de muito mais do que isso, embora não recuse felicidade. Estou me simplificando com o tempo, ou assim espero. Sei do custo e da surpresa de chegar até aqui. E da leveza de me sentir grata por estar onde estou. Estamos sempre onde conseguimos, não é mesmo? O que jamais poderia imaginar é que no dia 4 de julho de 2019, estaria pegando um trem para o Norte de Portugal. Onde decidi estar por vontade. E por conta de um projeto que me mantém em alerta e com esperança. Uma aventura que gosto de chamar de sonho. Quem quiser embarcar neste meu novo motivo, pode ficar à espreita, logo vou começar a contar. Se a gente não pode ter uma pele rejuvenescida a vida inteira, que sorte a nossa de passar pela vida se sentido vivo, apesar das marcas. Eu abri os olhos, aqui em Lisboa, e sei que a vida é minha amiga. Que fiz as pazes com ela. Tão bom ser feliz apesar de quem somos. E do que talvez a gente nunca consiga ser ou chegar a ter. O meu presente de mim para os meus quarenta era estar em Portugal. É o meu primeiro aniversário no verão. O sol já invade tudo de um jeito amarelo. Agora, vou fechar a porta, dizer até logo para Lisboa e embarcar num trem. Vou passar parte do dia na estrada. Gosto de pensar neste movimento. Outra porta será aberta no fim do dia. Não é necessariamente da minha casa, mas sei que terá afeto. Por acaso, será em Porto, mas hoje sinto que posso fazer de qualquer lugar do planeta o meu porto seguro, porque perdi o receio de me abraçar. E de me perder, também. Mas principalmente, porque também aprendi que nós somos a nossa casa. A minha, está habitada de mim e também de todos que sempre levarei comigo. É tanta gente que vai entrando, que vai chegando, que vai ficando desde sempre, que vai fazendo dessa viagem e dessa casa uma baita experiência! Uma festa sem fim. A minha casa também está com as janelas abertas. Sempre pode entrar mais sol. Mais gente. Mais uma nova versão de mim. Nesta casa, sei que para se amar, qualquer lugar é lugar. E qualquer idade, também. Tem tanta coisa pra dizer dos 40 anos. Acho que eu só queria mesmo era contar que vou pegar um trem para o/um Norte. Hoje queria abraçar muita gente. Gente que está aqui, deste lado do oceano e gente que me viu nascer. Que me acompanha. E que quero tanto bem que está no Brasil. Mas vou passar viajando. Rumo a este novo desconhecido que é trocar de cidade e de idade. Mas o que não posso deixar de falar é que o abraço mais difícil é o que a gente dá em si mesmo, ainda assim, tenho gostado de me envolver nesta tentativa. Sigo firme quando o assunto é melhorar, evoluir, se por a serviço, aprender, mas sei que amoleci para a vida. Não é da imagem de mulher flácida que falo. É da falta de necessidade de ter razão e de ter sempre uma opinião formada sobre tudo… Digo isso porque já quis ser rocha, hoje desejo ser rio. E nunca foi tão bom escorrer pelos dias. Com sorte, que venham os próximos quarenta, então.