Alto Vale

Reportagem: Gabriela Szenczuk/Dav

Desde que o Governo do Estado decretou estado de emergência em Santa Catarina por conta da pandemia mundial do coronavírus e recomendou que a população ficasse em casa, uma série de componentes sociais vêm sendo afetados. Serviços essenciais sofreram um abalo ainda maior do que outros. O Centro de Atendimento Psicossocial de Rio do Sul (CAPS), por exemplo, atende pessoas de todas as faixas etárias com algum transtorno psicológico e tem encontrado alternativas para seguir cuidando dos pacientes.
Para o coordenador do CAPS do município, Daniel dos Santos, a permanência das atividades é de extrema importância. “Se a gente, que nem sempre está bem, mas não sofre com transtornos mentais ou outras doenças, já está sendo difícil, imagina para eles”, ressalta.
Ele explica que o Centro tem trabalhado respeitando as medidas protetivas que visam o combate ao coronavírus. Desde a última semana os grupos terapêuticos, que beneficiam cerca de 600 pessoas, não têm tido encontros presenciais.

Projeto Casulo

Com o intuito de manter os serviços, a equipe do CAPS criou o Projeto Casulo que tem o objetivo de mostrar que mesmo em um tempo de necessidade de isolamento social ainda é possível enxergar o lado positivo: se conhecer e se relacionar melhor com quem convivemos dentro de casa. Além disso, o projeto ainda incentiva que se faça bom uso deste período como uma oportunidade para deixar as “asas surgirem e se preparar para os próximos voos”.
O principal desejo dos profissionais do local é que os pacientes não se sintam isolados ou esquecidos, e os psicólogos e professores dos grupos possam continuar exercendo seu papel social mesmo à distância. Eles dizem querer apoiar as pessoas e pedem para que enquanto todos estão em seu canto, no casulo, não se sintam desamparados. Também relembram que em pouco tempo os encontros presenciais serão retomados e até lá é necessária a permissão do crescimento das asas e o sonho com voos que desejam alçar.
Segundo a psicóloga da instituição, Laíse Versino, a ideia é, mesmo à distância, se aproximar. “A intenção é fazer com que os pacientes não se sintam afastados do processo terapêutico deles. Anteriormente algumas pessoas vinham diariamente ao CAPS, ou semanalmente nestas oficinas, mas como elas não estão sendo realizadas, a gente permanece acompanhando através do Projeto Casulo e entregamos os kits na casa dos pacientes”, relata.

Kit Projeto Casulo

A equipe idealizadora da iniciativa decidiu montar um kit contendo vários itens. Um deles faz jus ao nome do projeto, sendo uma borboleta que deve ser montada pelos próprios alunos em casa. Para isso, materiais de E.V.A, recorte e colagem vêm na sacola do kit com atividades de caça-palavras, cruzadinhas, além de textos, leituras e matérias sobre o próprio coronavírus. Como um bônus, também são recebidas algumas guloseimas.

Escuta acolhedora

Para complementar o kit, os profissionais de psicologia também têm feito uma escuta qualificada dos pacientes que comparecem ao CAPS, embora a maioria tenha permanecido em casa fazendo suas atividades que são renovadas semanalmente.
A escuta acolhedora, também conhecida como qualificada, trata-se de uma sessão de conversa onde o paciente, contatando o psicólogo, faz uma rápida atualização da situação. “Eles chegam aqui, ou falam por telefone, e a gente pergunta como está a vida. O dia a dia em casa, como está com a família, como está sendo ficar em casa e não vir pra cá, o que eles têm feito e como têm ocupado a rotina e a mente”, conta Laíse.

Saúde mental

Em tempos em que os maiores pedidos mundiais são a restrição de contato, isolamento social e a permanência em casa, não é só o coronavírus que vem tomando conta da sociedade. Outras doenças também devem receber atenção e a saúde mental torna-se tão importante na questão prevenção quanto à pandemia que hoje isola as pessoas.
De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, OMS, o bombardeio de informações e notícias sobre o coronavírus somados ao isolamento social provocam um pânico generalizado, causando transtornos mentais como estresse e ansiedade. Destes sintomas, na conjuntura atual, ninguém tem garantia de imunidade, mas aos que já têm uma tendência o risco é maior.
Segundo a psicóloga clínica e especialista em saúde mental, Cintia Adam, o ser humano é um ser social e, portanto, necessita manter contato com o outro para que a sua saúde mental permaneça em equilíbrio e haja a retroalimentação natural de valores e informações. “A privação da liberdade e a reclusão social, recomendados pela OMS, faz com que o indivíduo tenha que olhar para si, suas angústias, para tudo que lhe causa medo e que não tem controle”, afirma.
Ainda segundo a psicóloga, diante de tudo isso e do cenário que vivemos, a saúde mental se fragiliza muito. As buscas por tratamento, medicações e psicoterapeutas se elevam consideravelmente já que a ansiedade vem sendo pauta da maioria das sessões realizadas pela profissional devido à angústia do desconhecido que desestabiliza as falsas certezas criadas na vida. “Vale ressaltar que não devemos cuidar da saúde mental apenas em tempos de pandemia ou quando tudo fica instável. Pelo contrário, devemos nos manter com qualidade mental antecipada para, em momentos como este, termos as ferramentas emocionais necessárias e adequadas para minimizar o sofrimento”, explica.
Para Cintia, ser psicólogo é sempre um desafio, pois lida com o íntimo do outro e o comportamento humano – algo incerto. “A única certeza que temos agora é a do dever de aguardar, se cuidar, fazer a nossa parte e torcer para que logo tudo volte ao normal e no fim dê tudo certo”, finaliza.