Alto Vale
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Reportagem: Rafaela Correa/DAV

Silvana Bayerl e Marinilson Machado perderam a visão há mais de 15 anos e precisaram ser alfabetizados novamente em Braille. Apesar de levar uma vida normal e estarem acostumados com a falta de visão nas atividades diárias, o casal que vive em Ituporanga ainda enfrenta algumas dificuldades como a falta de livros. Diante dessa realidade sentem na pele como algumas iniciativas podem proporcionar a inclusão de deficientes visuais e a busca pelo conhecimento.

Ele tem 51 anos, mas há 18 perdeu a visão por conta do diabetes e foi alfabetizado pela segunda vez em Braille, mas apesar de gostar de livros, não consegue ler porque a doença que o fez parar de enxergar também tirou a sensibilidade dos dedos. Ela, que tem 36 anos, parou de enxergar há 15 anos por conta da toxoplasmose congênita. Eles se conheceram também há cerca de 15 anos e juntos encontraram o amor e apoio que precisavam para superar os desafios.

Com a pandemia, as saídas de casa ficaram menos frequentes, mas há pouco tempo o casal descobriu que a Biblioteca do Município onde residem possui algumas obras em Braille e desde então passaram a visitar o local, mas ainda assim, relatam que há uma necessidade de ampliar o número de títulos para que mais pessoas tenham acesso a esse tipo de obra. Silvana destaca ainda que o número de pessoas com deficiência visual cresce muito, mas que nem sempre essas pessoas e suas necessidades são compreendidas.

“A gente só soube este ano que a biblioteca de Ituporanga possuía livros em Braille. Eu gosto muito, leio bastante. Cheguei a trabalhar na impressora Braille da Associação de Cegos de Florianópolis, como revisora na impressão dos livros. Acredito que deveriam investir mais em livros. É claro que não é tão fácil para conseguir livros em Braille gratuitamente, mas existem algumas associações que fazem, produzem livros e distribuem. Acho que precisa muito porque há um crescimento de pessoas cegas ou com baixa visão. Muitos até estão ‘escondidos’, não aparecem, mas sabemos que tem crianças com deficiência visual e que vão precisar ler também”.

Entre as obras lidas, Silvana cita Ubirajara e Cinco Minutos, ambos de José de Alencar, mas a biblioteca tem uma série de títulos em Braille e pretende comprar mais nos próximos meses. De acordo com a gerente de Cultura da Fundação Fexponace, Ana Carolina Grah Nicolodelli, a intenção da Administração é ampliar o valor disponível para compra de livros. “Nossa compra de livros, atualmente, é de R$500 por mês, mas nossa pretensão é dobrar esse valor porque livro não é gasto, livro é investimento. Pretendemos sempre incluir cada vez mais pessoas no âmbito da leitura.

Incentivando e fomentando o conhecimento e o poder de viajar para onde quisermos, com um simples livro. E nos próximos meses, incluiremos sempre a compra de livros para inclusão de deficientes intelectuais ou sensoriais”, afirma. Ela destaca ainda que na compra anterior também foram pedidos livros em Libras.

Entre as obras em Braille, que estão disponíveis na biblioteca, estão: “Naufragos, traficantes e degredados”, de Eduardo Bueno. “O descobrimento das índias”, também de Eduardo Bueno. “O homem e o tempo”, de Raquel de Queiroz. “O picapau amarelo”, de Monteiro Lobato. “Ubirajara”, de José de Alencar. Além desses, ainda existem coleções de vários autores que unem crônicas, histórias e poesias de Cecília Meireles, Mário Quintana e Vinicius de Moraes.

Questionados sobre as dificuldades enfrentadas em razão da deficiência, Silvana afirma que eles levam uma vida normal e que a reabilitação ajudou muito para isso. “Levamos uma vida normal, como qualquer outra pessoa que enxerga. Nós nos reabilitamos em Florianópolis, fizemos cursos de orientação e mobilidade para andarmos sozinhos pelas ruas com a bengala, fizemos cursos de telefonista, tear, tapeçaria, diversos cursos, mas como já enxergamos antes e fazíamos as coisas em casa, a gente não tem dificuldade quanto a isso. Para quem já enxergou é mais fácil e para tudo se dá um jeito, é só querer”, finaliza.