Alto Vale

É de conhecimento geral que os municípios brasileiros atravessam grandes problemas de arrecadação, e o discurso da maioria dos gestores é de que se deve ter cautela com gastos e investimentos para que não se ultrapasse o limite da responsabilidade fiscal. A folha de pagamento de pessoal é um caso que chama a atenção, pois se cortes em obras e outros setores públicos são realizados, por que salários altos, muitas vezes bem acima do praticado no setor privado, ainda são pagos aos agentes políticos?

O Jornal Diário do Alto Vale pesquisou os salários dos prefeitos locais e, ainda, de grandes capitais brasileiras, para analisar se estão de acordo com a realidade da região e do país como um todo. O resultado foi surpreendente e pode ser observado no quadro a seguir, segundo dados levantados nos respectivos Portais da Transparência de cada Município. Ressalva para as cidades que não estão no box, pois ou o portal não disponibiliza o dado ou o acesso não é facilitado, prejudicando a visibilidade da informação pela população.

Vale ressaltar que os salários dos servidores municipais das cidades brasileiras são baseados em sua arrecadação, ou seja, quanto maior os rendimentos do Município, maior o provendo, inclusive, do prefeito, vice-prefeito, secretariado e vereadores. Deste modo, Rio do Sul, em nível de Alto Vale, como polo econômico regional, apresenta o maior salário de prefeito: R$ 26.855,13.

Se comparado com as maiores cidades do estado, os números são surpreendentes, pois mesmo com uma arrecadação consideravelmente menor, Rio do Sul ainda se destaca no ranking de salários. Na capital Florianópolis, Gean Loureiro recebe mensalmente R$ 25.609,42; em Blumenau, o prefeito tem em seu contracheque o valor de R$ 21.444,00. Apenas em Joinville, a maior cidade do estado, com uma população nove vezes superior à Rio do Sul, é que Udo Döhler recebe R$ 27.902,72, pouco mais de mil reais acima da capital do Alto Vale.

Ainda, ao analisarmos os salários praticados em grandes metrópoles brasileiras, é que Rio do Sul se sobressai. Em Porto Alegre, o prefeito ganha R$ 19.477,40; em Curitiba, Rafael Greca recebe R$ 26.723,13; e, na maior cidade do país, o atual prefeito, João Dória, tem por direito o salário de R$ 24.165,87, mas, por opção pessoal, o valor é integralmente doado todo mês para instituições de caridade.
A reportagem conversou com o prefeito José Thomé sobre este fato. Thomé explicou que este ordenado é praticado em Rio do Sul conforme reajustes do funcionalismo público, mas, que na cidade não existe aumento real nos rendimentos dos servidores há pelo menos 15 anos. “Eu acredito que quando se trabalha é justo. Mas, afirmo que não é uma decisão tomada nesse Governo, pois não existe legalidade para um prefeito aumentar o próprio salário”, salientou. Ainda, comentou que em 2012, enquanto presidente da Câmara, “fui provocado a aumentar o salário e não aumentei, não coloquei esse assunto na pauta”, afirmou Thomé.

Ele também destacou as ações de seu governo que enxugaram a máquina pública, economizando R$ 8 milhões. “Desde o ano passado, quando vencemos a eleição, nós adotamos uma proposta de reforma administrativa. Nós reduzimos 40% o número de secretarias, 23% de cargos comissionados […] revimos todos os contratos da prefeitura, e de 143 linhas telefônicas passamos para 20. O planejamento estratégico que o Sebrae realizou a custo zero para nós, para se ter uma ideia, custava R$ 300 mil por ano ao Município. Eu tenho convicção que nós adotamos um modelo econômico que nos deu possibilidades, por exemplo, abrir 21 escolas no período de férias escolares, quando na gestão anterior eram apenas 11”, exemplificou o prefeito, que ainda citou outras economias realizadas neste início de trabalho.

Na opinião do economista mestre em Desenvolvimento Regional e coordenador do curso de Ciências Econômicas do Centro Universitário para o Desenvolvimento do Alto Vale do Itajaí (Unidavi), Msc. Luiz Alberto Neves, esta questão vai além do posicionamento de cada gestor público individualmente, e reflete uma cultura nacional, que deveria ser revista: “O que precisa se analisar em termos de Brasil, é que a classe política está totalmente dissociada da realidade [em termos de salário], independente de partido, de estado, de município. Não só prefeitos, mas também vereadores têm salários muito altos […] o que a gente deduz, é que ao dinheiro público não é dado o devido respeito”, comenta.

Abordando a questão de discrepância com a iniciativa privada, o professor explica que não se pode afirmar com
precisão o patamar de salários praticados aos altos executivos, pois estes números, diferentemente do âmbito público, não são divulgados precisamente. “Acredito que dificilmente uma grande empresa de Rio do Sul contrataria alguém para ganhar mais que R$ 20 mil, a não ser que possuísse um currículo fenomenal, mas isso é uma questão cultural […] se observarmos as dificuldades que hoje passam as prefeituras, é óbvio que esse salário fica fora da realidade”, argumentou o economista.