Cidade, Saúde

Pesadelos e noites mal dormidas fazem parte da rotina de Eliziane Catarina da Silva há 15 dias. A mulher de 36 anos que mora na Barra do Trombudo, em Rio do Sul, desejaria estar ninando sua filha Sophia, mas em vez disso está vivendo o luto por ela. Eliziane afirma ter sido negligenciada quando procurou atendimento no Hospital Regional Alto Vale com dores de parto e se pergunta se a filha hoje estaria com vida se tivesse sido diferente.

A mulher tem quatro filhos e, em todas as gestações, nunca teve sintomas comuns de trabalho de parto como contrações e dilatação. “Eu só tenho cólicas”, explica. Quando as dores chegaram, na noite de 21 de junho, uma quarta-feira, ela e o marido foram até o Pronto Socorro do Regional acreditando se ela passaria por uma cesariana, mas não foi o que aconteceu.

Mesmo explicando o histórico, Eliziane foi orientada pela equipe médica a esperar alguns dias. Ela chegou a fazer um exame que indicou que os batimentos cardíacos do bebê estavam bem e foi medicada. “Ele [o médico] me deu uma injeção de Buscopam e Plasil e me mandou embora. Eu ainda fui de novo no consultório dele e disse que eu só tinha cólicas, mas ele disse ‘não, tudo bem, vai para casa que essa cólica aí é normal. Volta na segunda que, se tiver vaga, a gente faz a cesárea’, senão ele faria outro dia”, afirmou. Porém, com dores, de volta ao hospital no dia seguinte (22 de junho), Eliziane já sentia que algo estava errado. “Minha barriga estava dura”, lembra.

Ela fez um exame e recebeu a pior notícia que uma mãe pode ter: a criança estava sem vida. “Eu tenho certeza que ouvi ele falando que não tinha líquido [na barriga]. Ele não falou para mim, falou bem baixinho para elas [enfermeiras] mas eu ouvi. Ai eu perguntei ‘o que vocês querem dizer com isso?’ e ele disse que estava morto e deu as costas para mim”, contou.

Além da notícia trágica, o que chocou Eliziane e o marido foi a forma como a equipe do hospital cuidou dela.  Segundo o relato da mulher, a equipe médica a tratou com descaso durante todo o atendimento, ironizando as cólicas que ela sentiu e cometendo erros. “Tivemos que voltar no Regional porque até o papel que deram [constatando a morte do feto] não foi aceito no cartório. Estava errado, dizia que eu estava de cinco meses”, disse.

 

Sem causa da morte

No documento mencionado está escrito “morte fetal de causa não especificada”. A falta de motivo revoltou o marido de Eliziane, que no momento que foi informado quis reivindicar uma autópsia, mas, de acordo Eliziane, uma funcionária do hospital disse que esse é um procedimento muito caro e aconselhou que a família não fizesse. “Quando pediram para eu não fazer a autópsia ainda disseram que a criança era toda defeituosa”, lembra a mulher. Disseram que o bebê tinha uma falha no lábio, que o joelho estava quebrado e que “os ossos da cabeça estavam para fora”, dando a entender que o motivo da morte pode ter sido uma má formação. Eliziane diz que os exames feitos durante o pré-natal não indicaram nada de errado com o feto e que antes de enterrar, quem viu a criança diz que ela só tinha uma falha no lábio, nada na cabeça ou pernas.

 

Eliziane não está sozinha

Inconformada com a situação, a mulher desabafou em uma rede social. “Eu não quero processo, eu não quero dinheiro, eu não quero nada. Isso não vai trazer a Sophia de volta. Eu só quero que outras possas não passem pelo que eu passei”, disse Eliziane. O relato tomou grandes proporções quando outras pessoas vieram relatar situações parecidas, muitas referente ao HRAV. Os relatos falam sobre atendentes que tratam pacientes com ironia, demora e descaso. “Também fui mal atendida e também zombaram de mim, enquanto eu tive contrações de parto morrendo de medo de me dar crise de asma, e as enfermeiras lá achando graça”, comentou uma das pessoas.

Outra lembra um caso que ocorreu no passado. “Há três anos eu estava entrando em 41semanas e tinha umas cólicas fui lá pelo menos umas três vezes e sempre me trataram com descaso. Então quando estava indo para 42 e sem dilatação e não queriam nem fazer ultrassom recorri a outro hospital”, desabafou a mulher.

Tainara de Oliveira Xavier, 19 anos, também foi ouvida pela reportagem. Ela está completando 42 semanas de gestação e procurou atendimento no Regional porque estava com dores. Ela fala sobre como foi atendida no Pronto-Socorro na noite de quinta-feira passada. “Eu só queria que eles me atendessem bem. Eu fui lá, as enfermeiras disseram para eu tirar a roupa e ficar esperando. Fiquei lá, no frio, era de madrugada e elas lá conversando se iam pedir pizza ou lanche para comer”. Na noite desta sexta-feira (7), ela iria ao hospital novamente.

Transtornada, Eliziane guardou na casa da vizinha o enxoval do bebê. A filha mais nova, que tem 3 anos, ainda pergunta da irmã e não entende o aconteceu. Ela e o marido também seguem com muitas perguntas, que podem nunca ter uma resposta. “Eu tenho pesadelos à noite e não tenho dormido direito”, conta. Mesmo quem estar disposta a enfrentar um processo, Eliziane agora pensa em levar a história em frente, procurando a Ouvidoria do HRAV ou até mesmo a polícia.

 

Argumentos do Hospital

No HRAV, ninguém quis dar entrevista sobre o assunto. Por nota, o hospital se manifestou. O texto relata que “até o momento, não recebeu qualquer tipo de manifestação do pai ou da mãe no Serviço de Atendimento ao Consumidor”. As informações podem ser enviadas pelo endereço eletrônico: sac@hrav.com.br ou através do número (47) 3521-2000.

O HRAV mencionou, no primeiro atendimento a paciente “disse para médicos e enfermeiros que fumava e estava com o pré-natal incompleto” e que foi orientada para fazer repouso, depois que foram realizados “várias exames”. O hospital também relatou que o companheiro da paciente ficou alterado quando soube do óbito e “antes mesmo das explicações médicas ele começou a gritar e ameaçar os funcionários do hospital”. Segundo o hospital, depois da cirurgia a mãe recebeu atendimento psicológico, o que foi negado por Eliziane. Ela ainda disse que uma médica prometeu um medicamento para que o leite dela secasse e até isso foi “esquecido”.

Suellen Venturini