Alto Vale
Foto: DAV

Reportagem: Cláudia Pletsch/DAV

O Dia das Crianças é lembrado todos os anos como sinônimo de alegria, amor genuíno e inocência. Todas essas características que fazem parte de ser criança é o que torna a infância a melhor fase da vida. Mas essa data também serve para que possamos refletir e incentivar os cuidados com os pequeninos, já que mesmo dentro de casa o olhar deve estar sempre atento a segurança daqueles que mais precisam do auxílio dos responsáveis. É o que conta uma mãe, moradora do Alto Vale que passou momentos difíceis após ouvir um relato de abuso vindo da própria filha, na época com oito anos.

A mãe que não quis se identificar, explica que há cerca de um ano ouviu da filha que na época tinha oito anos um relato que mudou completamente sua vida, isso porque a criança tomou coragem para contar sobre o abuso que sofria desde os três anos de idade, e esse abuso acontecia da pior forma, dentro de casa, pelo padrasto. “Eu fiquei sabendo do abuso pois estava conversando com minha ex – cunhada e ela me disse que meu ex – esposo tinha mexido com a filha dela, que é sobrinha dele. Na época eu já estava separada dele há seis meses e acabou que quando ouvi aquilo dela até não acreditei pois ele era uma pessoa muito boa para todos, era um bom pai para minha filha, era realmente alguém que eu nunca imaginaria que faria isso. Mas nesse dia que falei com minha cunhada acabei colocando um vídeo de uma psicóloga falando sobre cuidados com as crianças e acabou que minha filha virou para mim e disse que tinha uma coisa para me contar, ela então falou sobre os abusos e naquele momento meu mundo desabou, eu até fiquei um pouco desconfiada, não queria acreditar nela, mas não podia deixar de acreditar na minha filha”, relata.

A mulher ainda conta que depois do relato buscou ajuda psicológica e tomou os procedimentos cabíveis na justiça, mas mesmo com acompanhamento a filha que hoje tem nove anos ficou cerca de três meses sem falar depois do relato. “Quando ela me contou eu fiquei sem chão, me culpei muito pois não conseguia entender como eu nunca tinha percebido nada, e o pior de tudo isso é que ninguém acreditava em nós. Procurei o pai biológico dela para buscar ajuda e ele não acreditou, então passamos por muita coisa sozinhas, passamos por delegacia, psicólogas, exames e foram tantas coisas que eu tive até que mudar de cidade. Depois que ela me contou ficou três meses sem falar, apenas fazia gestos quando conversava com ela. Mas com a ajuda psicológica eu e ela conseguimos nos recuperar”, esclarece.

A mãe diz ainda que chegou a mudar de cidade para poder viver longe do padrasto, pois mesmo depois de ter entrado na justiça muitas pessoas próximas não acreditavam na versão da criança, o que a deixava muito abalada. Além disso ela ainda conta que precisou de ajuda psicológica para aceitar que não tinha culpa dos abusos do seu ex- companheiro. “Muita gente não acreditava em mim, como estávamos separados na época diziam que eu estava inventando por conta da separação, então preferi ir embora. Além disso eu me culpava muito por nunca ter percebido nada, eu me sentia responsável pelo que aconteceu com ela, e com a ajuda da psicóloga ela me disse que eu não tinha como saber, pois o abusador age assim mesmo, geralmente são pessoas muito boas e ninguém percebe ou acredita. Por isso que acontece tanto dentro de casa”, explica.

Um ano depois de descobrir os abusos a mãe relata que o esforço junto com a ajuda psicológica deram resultado, hoje a menina diz que não tem problemas em falar sobre o ocorrido, e a mãe ainda diz que ela deseja ajudar outras crianças contando pelo que passou. “Na época eu orientava a minha filha sobre sexualidade, mas orientava daquela forma antiga que os pais usam, não falando o nome correto do órgão genital. Hoje eu vejo que é importante falar o nome correto e mostrar onde as pessoas não devem tocar, pois por mais que eu não percebesse minha filha deu muitos sinais, ela teve momentos de agressividade na escola, era uma menina doce e na época chegou a bater nos meninos. Ela não podia chegar perto de meninos, não conseguia se relacionar com eles e ficava agressiva. Hoje ela já olha para mim e diz que consegue ser amiga de um menino. Depois de muita luta, de muito incentivo no esporte hoje ela está bem. Costumo incentivar ela a jogar, a andar de bicicleta e a fazer vários esportes, sempre levo ela em contato com a natureza e senti que isso ajudou muito. Hoje ela está bem, continua com acompanhamento, mas hoje ela já diz que quer ajudar outras crianças contando o que aconteceu com ela”, finaliza.