Alto Vale
Foto: Adriano Gava

Reportagem: Rafaela Correa/DAV

Os desafios encontrados por muitas indústrias para comprar materiais estão relacionados ao descompasso entre oferta e demanda, causado por diversos fatores ligados ao período de paralização em razão da pandemia. Em todo o estado de Santa Catarina, empresários relatam dificuldade na compra de produtos para revenda. No Alto Vale, empresários ligados à construção civil e ao setor têxtil já falam sobre problemas com variação de preço e falta de material no mercado.

Em Ituporanga, o engenheiro civil, Rubens Bilk, que trabalha em uma loja de materiais de construção fala sobre complicações na hora da compra. Segundo ele não há como garantir preço e prazo de entrega. “Nós não conseguimos garantir nada para o cliente quando não tem o material na loja. Parte de tijolo, por exemplo, a gente tem programação já para duas semanas e não tem tijolo no estoque. Questão do aço a gente não consegue garantir preço se não tem a mercadoria em casa”, conta.

Além da escassez nos materiais, os estabelecimentos ainda sofrem com a variação do preço e incerteza na hora de fazer os pedidos. “Nós temos um pedido na fábrica de pisos cerâmicos que eles prometem para três meses e o preço é instável. O pedido está montado e ainda tem a variação do preço. Na questão de fios, a variação acontece depois de o pedido já feito, eles não garantem o preço nem depois do pedido já realizado e a gente paga o pedido somente no ato da entrega porque não se sabe o valor que vai vir”, relata.

Questionado sobre uma possível diminuição no número de construções, ele diz que as reformas pequenas não pararam e que as pessoas continuaram construindo. “A demanda realmente foi maior que o esperado. Nós não sabemos até quando vai essa demanda porque provavelmente as fábricas pararam na pandemia, zerou o estoque e a grande demanda pode ter gerado esse atraso. A gente não sabe até quando vai isso pela incerteza de preços e falta de estoque”, explica. Ele diz também que tal falta foi percebida de forma mais acentuada há dois meses e principalmente nos materiais, como tijolos e aço. Rubens ressalta que a expectativa é que a situação seja normalizada até março de 2021.

A empresa para a qual o engenheiro presta seus serviços empreitava construções de casas, e esses trabalhos também foram afetados. “Prejudica a empreitada. A construtora que fecha obra no início com um preço casado pode estar sendo prejudicada porque não há um preço fixo e nem a garantia de que o produto vai chegar na data certa. A gente diminuiu o ritmo porque o prejuízo pode ser para o bolso do cliente e também o nosso, já que não podemos estabelecer um preço”, completa.

Assim como os setores ligados à construção, o segmento têxtil também já sentiu os impactos da falta de matéria-prima no mercado. A funcionária Brunna Pereira que trabalha em uma grande empresa de confecção de roupas também fala sobre escassez. “Passamos por um momento bem difícil em relação à compra de matéria-prima nos últimos meses, mas acreditamos que este cenário mudará a partir do começo de 2021. Agora, alguns fornecedores não tem mais estoque, e estão atendendo somente por encomenda. Os produtos operavam com prazos de sete e 30 dias, atualmente o mesmo se estendeu para até 60 dias e compramos de todo o território nacional”, revela. Brunna também lamenta a baixa nos rendimentos causados pela crise.

A paralisação da produção, sobretudo em março e abril, velocidade da retomada da demanda em diversas economias, mudança do padrão de consumo e taxa de câmbio podem ter contribuído para a situação atual, diz o consultor da Federação das Indústrias (Fiesc), Pablo Bittencourt. Os dados foram confirmados por uma sondagem feita pela entidade em parceria com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e revela que 50,5% das indústrias de Santa Catarina consultadas não podem aumentar a produção por conta da escassez de matérias-primas.
Em sua apresentação, o consultor explicou que à medida que alguns países iam entrando em lockdown, parte das cadeias foram sendo afetadas, com a parada da produção. O retorno desses fluxos foi mais devagar do que se esperava.

“O restabelecimento das correntes de comércio nas cadeias produtivas deve demorar um pouco ainda e isso ajuda a explicar as dificuldades para comprar insumos. De 40% a 70% das empresas brasileiras, segundo dados do IBGE, registraram problemas com fornecedores na primeira quinzena de setembro. Isso é fruto dessas grandes dificuldades internacionais”, destacou.

Pesquisa

A pesquisa apontou que 64,5% das empresas consultadas informaram que estão com dificuldades para atender a demanda e 36,9% delas relataram que a demanda é maior do que a capacidade de produção.
Ainda de acordo com a pesquisa, 43% dos industriais ouvidos acreditam que a normalização no atendimento aos clientes ocorrerá de 3 a 6 meses enquanto que 46% responderam que a normalização deve ocorrer em até três meses. Mesmo tendo acesso aos insumos por um preço mais elevado, 46,1% dos respondentes informaram estar com dificuldade de acesso às matérias-primas produzidas nacionalmente.
Para 33,2% dos empresários industriais, o motivo está relacionado ao aumento da demanda acima da capacidade, enquanto que 25,6% acreditam que o preço elevado é reflexo do desequilíbrio entre oferta e demanda. Apenas 11% dos entrevistados acreditam que o desajuste vai se manter por mais de 6 meses.