Alto Vale
Foto: Elis Cristóvão

Reportagem: Helena Marqardt/DAV

Poderia ter sido o roteiro de uma novela com direito a reviravolta e final feliz, mas para duas ibiramenses que descobriram aos 47 anos de idade que foram trocadas na maternidade, a história ainda traz a tona muitas feridas do passado. As duas meninas nasceram em dias diferentes, mas no mesmo local, o antigo Hospital Hansahoehe, e acabaram sendo levadas para a casa por famílias que não eram as suas. Elas conviveram juntas durante toda a vida e ouviram de dezenas de pessoas brincadeiras sobre uma possível troca na maternidade, suspeita que acabou sendo confirmada por um exame de DNA quase 50 anos depois.

Um das mulheres, que trabalha como costureira e preferiu não se identificar, relata que a mãe contou que quando ela nasceu, no dia 30 de outubro de 1973, no antigo Hospital Hansahoehe, a bebê tinha uma aparência, mas quando foi levada novamente ao quarto estava diferente. “Minha mãe conta que eu nasci com uma cor mais avermelhada e entregaram uma bebê mais branquinha. Ela até questionou para a enfermeira que a criança estava diferente, mas falaram que tinham passado talco e ficou por isso, ela não imaginou jamais que fosse outra criança”, disse.

A mulher relatou ainda que os primeiros boatos sobre uma possível troca começaram a surgir quando as meninas passaram a frequentar a escola. “É um lugar pequeno onde todo mundo conhece todo mundo e as outras pessoas me achavam parecida com a família dela e ela parecida com minha família. Ela é realmente a cara da minha mãe e começaram os comentários”, afirma.

A outra mulher que foi trocada, e também preferiu não se identificar, conta que as duas cresceram juntas, moravam no mesmo bairro, frequentavam a casa uma da outra e que durante toda a vida, pela aparência delas, houve uma desconfiança, mas os próprios pais nunca procuraram fazer o exame de DNA, por não aceitarem o fato de que isso realmente tivesse ocorrido.

“Os anos foram passando até que um dia minha mãe de sangue resolveu fazer o DNA, ela conversou comigo e no exame foi confirmada a troca. Achei que quando ficasse sabendo ia continuar tudo como antes, mas fiquei sem chão. Passou um filme na minha cabeça que minha vida poderia ter sido diferente e de lá para cá as coisas mudaram muito, penso muito como poderia ter sido. Acho que ninguém quer que os filhos sejam trocados no hospital”, diz ela.

Ela garante que ama sua família de criação, mas até hoje nem todos os envolvidos, especialmente os pais, aceitam a troca e por isso as famílias ainda não se encontraram, nem estreitaram os laços, o que tem tornado a situação ainda mais difícil. “Nenhuma mãe merece ir para casa com um filho que não é dela e acho que fizeram muito mal para nossas famílias, hoje a dor é muito grande para todos os envolvidos, principalmente aceitar porque é uma situação muito difícil tanto para eles quanto para a gente. Queria muito visitar minha mãe de sangue, mas isso magoaria muito minha mãe de criação então é muito triste. Espero que com o tempo todos possam entender, conversar e esquecer essa mágoa”, completa.

Vítimas pedem reparação na justiça

Depois de descobrir que realmente foram trocadas na maternidade as mulheres ingressaram com uma ação na justiça por danos morais pedindo a reparação. Segundo a advogada responsável pelo caso, Ilda Valentim, na época em que elas nasceram o hospital estava sob o controle do Exército (União) e do Estado de Santa Catarina. “Com a chegada da Segunda Grande Guerra Mundial e a posição tomada pelo governo brasileiro, em 1942 o prédio foi confiscado pelo Exército. Mesmo confiscado e sob o comando do Governo do Estado de Santa Catarina, o prédio continuou a servir de hospital até 20 de setembro de 1986, quando foi devolvido à comunidade e à Associação Beneficente e Filantrópica Hamônia. Assim, cabe uma ação indenizatória tanto contra a União quanto contra o Estado de Santa Catarina”, explica a advogada.

Ilda esclarece ainda que a ação não prescreveu pois o prazo só começa a ser contado a partir do momento em que as mulheres tiveram ciência da troca dos bebês e que a obrigação de indenização é motivada pelo sofrimento causado a todos os envolvidos. “Podemos imaginar a dor destas meninas que sofreram na infância com a falta de semelhança física com seus pais. Viveram e conheceram histórias que não eram de suas respectivas famílias. Não estão sabendo lidar com os sentimentos. É uma situação desesperadora. Parece que tudo que viveram era uma mentira. Surge a angustia de ficar pensando como seria a vida com a sua família biológica, como seriam os relacionamentos de irmãos, as brincadeiras de crianças, surge a pergunta se seriam pessoas diferentes. Não se está dizendo que não foram criadas com carinho, mas devido a um ato negligente do hospital, foram criadas por pessoas distintas”, argumenta.