Especial
Foto: Epagri - Estiagem e altas temperaturas auxiliaram para a diminuição dos bulbos sem uso da irrigação

A colheita da safra de cebola 2017/2018 já começou na Região da Cebola. Porém, por conta das variedades cultivadas, precoces e crioulas, enquanto em algumas regiões, as consideradas “partes baixas”, o período é de colheita, em outras as chamadas “partes altas” a hortaliça ainda está em processo de desenvolvimento. O que se assemelha nesse ano entre os dois processos é o prejuízo causado pela estiagem e as altas temperaturas registradas durante o mês de setembro.

O gerente da Estação Experimental (Epagri) de Ituporanga, Claudinei Kurts, explica que o clima sofreu alterações muito significativas nos últimos meses e isso fez com que as culturas fossem diretamente afetadas, em especial a cebola. “A estiagem por si só já prejudica, e aliada a ela, tivemos no início do ciclo do desenvolvimento das plantas temperaturas muito altas, que chegaram próximas a 30 graus”, conta.

Segundo ele esse calor fora de época, faz com que a cebola tenha uma indução a finalizar o seu processo de desenvolvimento. “A bulbificação da cebola ocorre em decorrência do foto-período (cumprimento dos dias necessários para o desenvolvimento da planta) e da temperatura. Se você tem temperaturas elevadas, há uma indução da bulbificação precocemente. As plantas, mesmo que elas não emitiram um número adequado de folhas já iniciam o processo de bulbificação, isso cessa a emissão de novas folhas e com isso antecipa o ciclo e há uma queda de produtividade”, explica.

De acordo com o pesquisador e gerente da Epagri, o prejuízo com a perda de produtividade ocorre porque o tamanho do bulbo da cebola está diretamente ligado a quantidade de folhas desenvolvidas em cada planta. “Quanto mais folhas o pé da hortaliça desenvolve, maior a chance de o bulbo chegar a um tamanho maior”, acrescenta Kurts.

Análises apontam que os agricultores que apostaram nos cultivos mais tardios acabaram sofrendo mais com esses fatores climáticos. “As partes baixas, onde já iniciamos a colheita, Cerro Negro em Ituporanga, Petrolândia e Aurora, o ciclo já estava sendo finalizado e não houve prejuízos por conta das altas temperaturas, somente em partes, pela estiagem já que nem todos os produtores possuem irrigação. Já os produtores das “partes altas”, Imbuia, Vidal Ramos, Bela Vista, por exemplo, foram mais prejudicados, porque essas temperaturas são esperadas no final do ciclo, interferindo assim diretamente no desenvolvimento das plantas”, ressalta.

Novas doenças também afetaram o desenvolvimento

Como se não bastasse as condições climáticas interferirem diretamente no desenvolvimento das plantas, as altas temperaturas e a falta de chuva, fez também com que aparecessem novas doenças para acometer as lavouras de cebola na região.

Claudinei explica que as altas temperaturas favorecem o aparecimento de doenças de solo. Uma das doenças identificadas foi a “Raiz Rosada”. “Nessa situação a planta tem uma quantidade menor de raiz, com isso dificulta a absorção de água e de nutrientes, e com isso também vai fechar o ciclo precocemente, também diminuindo a produtividade”, comenta. Outra consequência dessas condições climáticas é o aumento de “tripes”, que são conhecidos também como piolho da cebola.

Os insetos são pequenos (1 mm de comprimento) e se alojam na parte interna da folha na região da bainha. A sua população é composta basicamente de fêmeas, reproduzindo-se por partogênese, ou seja, não depende do macho para a reprodução. Os sintomas de danos causados pelo “tripes” são as manchas principalmente na parte interna da folha, iniciando-se com uma coloração esbranquiçada, evoluindo para prateadas. Claudinei esclarece que com o aumento da intensidade de ataque dessa praga ocorre retorcimento, amarelecimento e seca das folhas, isso proporciona a diminuição do tamanho e peso dos bulbos, e consequentemente a redução da produtividade.

Além disso, está em estudo o aparecimento de uma nova virose que pode estar causando perdas de folhas precocemente. “Mandamos amostra para Brasília, no Centro Nacional de Pesquisa de Hortaliças (CNPH) que já em estudos preliminares apontam para existência desse vírus, estamos aguardando a confirmação disso, e se houver essa confirmação, isso sim seria um grande problema para os nossos produtores”, destaca.

Técnicos indicam a rotação de culturas

Caso seja confirmada a existência desse novo vírus em lavouras de cebola da região, a questão da rotação de culturas ganhará reforço por parte dos técnicos e engenheiros agrônomos. Isso porque, muitas das bactérias e dos vírus que afetam o desenvolvimento das plantas permanecem no solo e podem voltar a afetar a lavoura cultivada no mesmo local.

“A rotação de cultura serve como tratamento natural. Porém, sabemos que na nossa região nem todos os produtores conseguem fazer isso, dado a extensão das propriedades não permitirem”, explica Claudinei Kurtz, pesquisador e chefe do escritório da Epagri em Ituporanga.

A rotação de culturas é uma técnica agrícola de conservação que vem a diminuir a exaustão do solo. Isto é feito trocando as culturas a cada novo plantio de forma que as necessidades de adubação sejam diferentes a cada ciclo. “O ideal seria que cada ano fosse trocada a cultura. É evidente que onde há essa rotação, os prejuízos sempre são menores. Inclusive nesse ano, com estiagem, é possível constatar isso. Seria interessante, que o produtor fizesse a rotação com outras plantas comerciais como milho e soja e também com adubação verde, para ampliar a massa orgânica do solo e garantir assim, resultados positivos em termos de produtividade e menores custos de produção, finaliza.

Uso da irrigação

Apesar do alto custo para a sua utilização, a irrigação tem sido a salvação de muitas lavouras. Claudinei explica que a cebola é constituída por mais de 90% de água e é considerada medianamente exigente em água. A irrigação bem manejada possibilita obtenção de bulbos uniformes e de melhor qualidade e, ainda, possibilita mais de um cultivo por ano. “É importante os produtores ficarem atentos ainda as previsões, e quem puder, deve continuar a fazer o uso da irrigação para obter uma melhor produtividade”, acrescenta.

Redução na produtividade

Daniel Schimit, coordenador da Câmara Setorial da Cebola em Santa Catarina, afirma que ainda é cedo para quantificar os prejuízos diretos, causados por esses fatores climáticos aliados às doenças. “Não temos como mensurar exatamente os prejuízos ainda, porque muitas lavouras estão em processo de desenvolvimento e muitas ainda podem recuperar. Mas já é possível apontar uma queda de pelo menos 15% na produtividade”, pontua. Daniel, que também é gerente regional da Epagri no Alto Vale acrescenta ainda que a tendência é que esse ano os produtores tenham bulbos menores e isso afeta diretamente na quantidade de toneladas produzidas.

Adriane Rengel