Alto Vale
Foto: Helena Marquardt/DAV

Reportagem: Cláudia Pletsch/DAV

Fazer parte de uma família pode ser o sonho de muitas pessoas, mas tanto crianças como adultos as vezes precisam esperar anos para conhecer o rosto de quem estará para sempre dentro do coração. Na comarca de Rio do Sul, nos últimos meses 10 crianças foram adotadas e estão em período de adaptação, mas 25 ainda aguardam pela tão sonhada família. Apesar da dificuldade para conseguir adotar, que em alguns casos pode levar mais de cinco anos, pais que aceitaram o desafio falam sobre o amor incondicional pelos filhos.

E a prova de que o amor de mãe pode transformar a vida de uma criança é a história da professora aposentada Siegrid Jost. A moradora de Ibirama decidiu transformar o sonho em realidade em 1997 aos 44 anos, quando fez a inscrição como pretendente a adoção. Em1998 ela conheceu o rosto de Daniel, que hoje tem 22 anos e foi o motivo do que ela chama de maior amor do mundo. “Ser mãe adotiva é maravilhoso, é amar um filho que não geramos no nosso ventre mas que se fixou para sempre no nosso coração, então as vezes a gente chora, sorri, sofre, ama com a mesma intensidade que uma mãe de sangue. Não existe diferença entre mãe biológica e adotiva, mãe é mãe, e o que importa é o amor que tenho dentro do coração. É como diz aquela frase: adoção é outra forma de gestação, aquela que em vez de inflar a barriga, infla o coração e é a mais pura verdade”, conta.

Siegrid ainda relembra que depois de 21 anos decidiu procurar a família biológica de Daniel para que ele pudesse ter a oportunidade de se relacionar com os familiares, mais uma prova de amor incondicional. “O primeiro contato com a família foi muito emocionante e desde então a gente tem conversado muito, temos contato diário e nos damos muito bem, até tínhamos marcado um encontro, eles viriam todos aqui para Santa Catarina em março mas devido a pandemia isso foi adiado, agora nós esperamos que o quanto antes possamos ter esse encontro”, relata.

E as histórias de amor não acabam por aí. Outro casal de Rio do Sul, que preferiu não se identificar, também esperou cerca de sete anos para conhecer o filho. A adoção ocorreu há dois anos quando o menino tinha apenas 11 meses. “É um amor sem fim, é uma coisa que eu não tenho explicação para te falar o que é o amor por um filho adotivo, passaria todos os problemas, todos os desafios, tudo de novo para ter a guarda dele. Trocar uma fralda, ver caminhar, ver nascer o primeiro dente, dormir do lado do berço é maravilhoso”, conta o pai.

Ele relata ainda que o sonho da adoção para o casal surgiu depois de muitas tentativas de fertilização, e que desde o dia em que foram buscar o filho a vida mudou completamente. “A vida depois de adotar mudou de forma radical. Nos avisaram em um dia e no outro dia tínhamos que ir conhecer a criança. Antes de ver ele assinamos os documentos e adotamos sem conhecer. Em 24 horas nossa vida virou de cabeça para baixo, mas é maravilhoso, a gente conseguiu acompanhar os primeiros passinhos, os primeiros dentes e é surreal”, explica o pai.

Segundo o juíz titular da Vara da Família, Órfãos, Sucessões e Infância e Juventude, Raphael Mendes Barbosa, os processos de adoção na comarca que atende as cidades de Rio do Sul, Lontras, Presidente Nereu e Aurora seguem acelerados mesmo durante a pandemia. Ele revela que 10 crianças foram encaminhadas para adoção desde o mês de julho, e agora estão em período de adaptação com as famílias selecionadas para que esse processo seja oficializado.

O magistrado ressalta ainda que por conta das normas de segurança e distanciamento social alguns processos tiveram que ser adequados, mas ainda assim, tanto as adoções quanto o cadastro de pretendentes a adoção estão sendo feitos na comarca. “A pessoa se cadastra na comarca em que ela reside, nessa comarca é feito um processo de habilitação no qual tem que juntar alguns documentos e tem a participação do Ministério Público para atender o casal ou a pessoa que quer adotar. Também é feito um estudo social para verificar se a pessoa tem condições de adotar, após comprovada a condição esse processo é julgado e eles são incluídos no cadastro. No momento em que eles são cadastrados na comarca eles ficam automaticamente cadastrados para o país todo, e quando chamamos os pretendentes para a adoção se dá preferência para aqueles que estão inscritos na comarca, somente se não houver inscritos ou se um daqueles inscritos não estiver possibilitado de adotar por questão do perfil se passa para o cadastro estadual, depois se chega ao nacional e por último dependendo da situação até mesmo fazendo a adoção internacional”, explica.

No Lar da Menina no último mês foram registradas cinco adoções mesmo em meio a pandemia, o que foi motivo de alegria não somente para as famílias e crianças, mas também para os colaboradores do lar. O administrador Patrick Münzfeld, explica que as adoções do último mês foram de crianças de diversas idades, desde seis meses até 10 anos, o que significa um avanço, já que geralmente as pessoas procuram por crianças de até três anos. “Nós estamos bem felizes e estamos trabalhando para acelerar as adoções pois temos bastante demanda de crianças aqui no lar, estamos com o lar lotado e com certeza é mais humano a criança ter a própria família, ter a atenção da família voltada para ela, então para nós cada adoção é uma alegria”, conta.

Patrick também explica que o sucesso nas adoções se deu pelo trabalho realizado em conjunto com o Poder Judiciário e Ministério Público. “O lar passou por alguns problemas há alguns meses atrás e a gente está corrigindo tudo isso, trocamos toda a equipe técnica toda a equipe operacional e administrativa, hoje estamos fazendo um trabalho reto, firme e bem transparente, e essas adoções já são um resultado positivo pois nossa nova equipe elaborando bons relatórios e trabalhando em conjunto acaba resultando nisso, e é o que a gente quer, que dê tudo certo e isso é o importante, a alegria das crianças isso não tem preço”, avalia.

Em todo o estado os números de adoções não diminuíram com a pandemia, e segundo o Poder Judiciário de Santa Catarina (PJSC) no período de março a junho de 2019 foram realizadas 113 adoções, enquanto no mesmo período de 2020 foram 114.