Alto Vale
Foto: Divulgação

Rafaela Correa/DAV

No Alto Vale o cultivo do tabaco é feito por mais de 12 mil famílias, mas o que já trouxe muitos lucros para a região vem perdendo valor, é o que alegam os produtores. Eles afirmam que algumas fumageiras não estariam classificando corretamente o produto enviado e que os reajustes nos preços não são suficientes para cobrir os descontos de umidade. A Associação dos fumicultores do Brasil (Afubra) conversou individualmente com as empresas, mas segundo entidade não houve um acordo sobre o preço.

Em Chapadão do Lageado cerca de 450 famílias trabalham com fumo e por lá a reclamação é no sentido de que o rendimento obtido na safra 2020/2021 é o mesmo de anos atrás e que com o custo de vida atual, não é possível sustentar uma família tendo a cultura como única fonte de renda. Gabriel Montibeller reside na localidade de Figueiredo, a família dele planta quase 200 mil pés de fumo para a BAT Brasil e reclama do baixo percentual do reajuste. “Eles dão um aumento no fumo de 3% e 4% só que estão achando um jeito de tirar isso de volta. Nesse ano eles colocaram rigor na questão de umidade e o aumento da classificação eles tiram na umidade, coisa que nunca vimos. É um absurdo também a diferença de preço entre uma classe e outra, por exemplo o BO1 para o BO2, a diferença é muito alta. Não adianta subir o preço das melhores classes e não classificar pelo que realmente é o fumo. Além disso tem o preço dos insumos, a gente faz o pedido e eles não tem o preço que vamos pagar. Há cinco anos atrás a gente já vendia fumo no preço que estamos vendendo hoje. Esse ano o que eu vejo é que muita gente vai parar de plantar fumo, nós vamos plantar 150 mil a menos e partir para outra cultura, porque o fumo não oferece mais condições para a gente se manter”, desabafa.

Outra agricultora que não quis se identificar também contou que o melhor fumo teve rendimento extremamente baixo e que fica apreensiva para a próxima venda. “Nós já mandamos duas vezes, dá até medo de mandar o que ainda temos guardado. A gente desanima porque é um fumo bonito, bom, dá vontade de nem plantar mais. Se eles pelo menos classificassem do jeito certo, na classe que seria a correta já seria bom”, lamenta.
Em Ituporanga, além de todos os prejuízos causados pelo granizo, os fumicultores estão tendo que lidar com as dificuldades de comercialização. “Aqui na minha propriedade além de pagarem mal, eles estão descontando muito de umidade. Plantamos 45 mil pés de fumo e a cada 100 arrobas, em média duas arrobas e meia são descontos de umidade. Pretendíamos fazer uns R$87 mil, mas nessa situação vai dar mais ou menos R$75 mil sem descontar as despesas”, revela uma agricultora da capital da cebola que não quis se identificar e que também comercializa com a BAT Brasil.

Ainda em Ituporanga, na localidade de Rio Bonito, uma agricultora que também não quis ter a identidade divulgada revela em valores, a diminuição do lucro da lavoura. “Nosso fumo era bom e teve uma classificação inferior ao que valia. Eles pagaram TR2, TO2 não deram nem mesmo um quilo de BO1, nem nada. Fizemos 100 arrobas a mais do que no ano passado e R$22 mil a menos para se ter uma ideia”, ressalta com indignação.

De acordo com o presidente da Afubra, Benício Werner, o que houve foi uma imposição das empresas em relação à variação percentual do aumento. Ele diz que a reclamação procede e que o maior prejuízo é na hora da venda. “O que a gente esperava era que pelo menos as empresas tivessem uma tolerância maior na questão da classificação. O prejuízo maior para o agricultor é a rigidez na classificação e isso está mostrando no próprio preço médio conseguido pelo produtor até agora que é R$10,28, no ano passado era de R$10,13, ou seja, um aumento só de 1,48%, enquanto que as tabelas de preço aumentaram acima de 4% e não está chegando a 4%”, explica.

Ele aconselha os fumicultores a diminuírem a produção, já que o mercado internacional não estaria absorvendo toda a demanda produzida e com isso todos estão sendo prejudicados. “Cerca de 85% da nossa produção é exportada, então temos que estar atentos ao mercado internacional que não está mais absorvendo a produção mundial. Nós temos que administrar aqui diminuindo a oferta, claro que isso tem um limite, o que a gente pede é que cada produtor diminua pelo menos 10%, não é preciso sair da atividade, mas se cada um diminuir 10% do que plantava, nós certamente teremos um resultado melhor porque ele não terá tantas despesas plantando menos e o resultado vai ser o mesmo”, sugere.

Movimento Econômico gerado pelo tabaco

De acordo com a Afubra, a estimativa para a safra 2020/2021 é que Santa Catarina tenha um faturamento bruto de R$1,7 bilhão e uma produção de 185.187 toneladas. Ao todo são 80.678 hectares plantados e 41.839 famílias produtoras.

O que diz a BAT Brasil?

A reportagem entrou em contato com a empresa citada na matéria e através de sua assessoria de imprensa, ela emitiu uma nota afirmando que concedeu um reajuste de 4,65% à sua tabela de preços, superior ao custo de produção por quilo apurado. Este aumento estaria reforçando o compromisso com a rentabilidade dos produtores integrados e a sustentabilidade da cadeia do tabaco. Sobre os preços dos insumos, a fumageira afirmou que divulga no mês de abril o preço dos suprimentos agrícolas, visando maior controle do custo de produção e um pacote de valor competitivo para garantir que os parceiros tenham conhecimento dos valores dos insumos com antecedência. Para itens que são comercializados antes de abril, a tabela de preços segue conforme a praticada na última safra. “A BAT Brasil obedece a todas as instruções da Normativa 10 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) em seus processos de comercialização. O regulamento prevê que o teor máximo de umidade nas folhas de tabaco para comercialização é de 17%. O produto que apresenta teor de umidade superior a este percentual tem o valor da diferença descontado do peso”, diz a nota.