Alto Vale
Foto: Cláudia Pletsch

Cláudia Pletsch/DAV

Um golpe na compra e venda de veículos através da internet vem sendo registrado com frequência no Alto Vale. O estelionato acontece de forma que nem o comprador ou o vendedor tenham consciência de que ambos estão sendo vítimas de um crime. De acordo com a Polícia Civil, nas últimas semanas as delegacias de Lontras, Agronômica, Aurora e Rio do Sul registraram um número considerável de Boletins de Ocorrência por essa mesma prática.

Segundo a Polícia Civil, o golpe começa quando uma pessoa interessada em vender seu veículo faz um anúncio virtual, em sites especializados na revenda. O criminoso encontra a oferta, se apodera das fotos e publica um novo anúncio com essa imagens. Nesse site o golpista passa a ofertar o veículo com valor atrativo, e deixa seu número de whatsapp para contato. De acordo com a delegada, Andréia Dornelles, uma pessoa interessada é atraída pela oferta do criminoso e acaba solicitando maiores informações sobre o veículo, depois de passar todas as informações o golpista diz que está vendendo o automóvel para um familiar ou amigo em troca de uma comissão. À medida que a negociação avança, o comprador demonstra interesse em conhecer o automóvel solicitando ao golpista uma vistoria presencial. O criminoso diz que irá agendar uma visita com o familiar ou amigo e informa também que, no momento da vistoria, caso decida ficar com o veículo, o comprador deverá fazer o depósito bancário nas contas bancárias fornecidas pelo golpista, que são contas de terceiros (laranjas), que não estão em nome do vendedor, nem do golpista.

Para agendar a visita, o criminoso estabelece um primeiro contato com o verdadeiro vendedor pelo whatsApp e, munido de documentos furtados ou documentos falsos, se apresenta como empresário, advogado ou qualquer outra profissão que passe credibilidade. Na versão mais frequente, o golpista se apresenta ao vendedor como empresário e diz ter interesse no carro, relata que precisa fazer um acerto trabalhista com um ex-funcionário e que este ex-funcionário tem interesse em conhecer o carro pessoalmente e caso goste, ele comprará o carro para o ex-funcionário como forma de pagamento do acerto trabalhista. A delegada relata que é nesse momento que o golpe passa a tomar forma, já que o vendedor acredita que o comprador seja um ex-funcionário do golpista e o comprador acredita que o vendedor seja um familiar ou amigo do criminoso.

Para não ocorrer nenhuma suspeita por parte do comprador de que se trata de um crime, o golpista solicita que, no momento da vistoria, não comente nada com o vendedor sobre o valor que ele irá pagar pelo veículo e que também não diga nada sobre o fato de o homem ser familiar ou amigo do vendedor, para justificar esta solicitação, o golpista normalmente inventa alguma história para o comprador. “Eles falam algo do tipo: meu cunhado tem uma dívida comigo, logo, do valor que você me pagar, eu vou repassar só uma parte para ele ou alguma outra história convincente” revela Andreia.

A Polícia Civil alerta que o comprador fica muito interessado na compra pois o veículo está muito barato e acaba acreditando no criminoso. De igual maneira, para não ocorrer nenhuma suspeita por parte do vendedor de que se trata de um crime, o golpista solicita ao vendedor que não trate de valores do veículo com o ex-funcionário dele que irá vistoriar o veículo, diz ainda que, caso seu ex-funcionário goste do veículo no momento da vistoria, o vendedor poderia entregar as chaves pois ele faria imediatamente um depósito do valor anunciado para a conta do vendedor.

Segundo a Polícia, no momento do encontro e da vistoria do veículo, apenas comprador e o vendedor estarão presentes, o golpista se comunica com ambos apenas pelo telefone e pelo whatsApp e nunca é visto pessoalmente. Caso o comprador decida ficar com o veículo, ele imediatamente avisa ao criminoso pelo telefone que fará a compra, fazendo a transferência ali mesmo pelo telefone celular para a conta bancária que o golpista tinha lhe fornecido. O criminoso imediatamente entra em contato com o vendedor e diz que seu ex-funcionário gostou do carro e pede para aguardar 30 minutos que ele fará o depósito para a conta do vendedor. Nesse momento o criminoso deposita um envelope vazio na conta do vendedor, e lhe envia comprovante de depósito. Essas transações costumam ocorrer estrategicamente nas sextas-feiras e no fim de expediente do banco.

Nesse momento o vendedor com muita boa-fé já entrega o veículo ao comprador e este vai embora para casa, ou o vendedor aguarda para ver se o depósito foi compensado e, ao notar que o envelope foi vazio e que o dinheiro não caiu em sua conta, não entrega o veículo ao comprador, e este fica sem o seu dinheiro transferido e sem o veículo. Dessa forma o golpe perfeito foi aplicado e o golpista bloqueia comprador e vendedor de seu whatsApp e desaparece impune e sem nunca ter sido visto presencialmente.

De acordo com a delegada da Polícia Civil de Rio do Sul nenhum dos casos que aconteceu na região tiveram desfecho e todos seguem em investigação. “Quando a pessoa faz a transferência para a conta do criminoso ele imediatamente já transfere para outras contas, então até a gente conseguir entrar em contato com a agência, pedir o bloqueio do valor esse dinheiro já sumiu”, explica.

Andreia ainda revela que as investigações apontam que os golpistas não são da região, e se aproveitam da boa-fé dos moradores de pequenas cidades. “A gente percebe que as contas geralmente são de São Paulo. Provavelmente os golpistas nem são aqui da região, a gente desconfia que sejam de São Paulo. A última ocorrência que teve foi que um vendedor anunciou uma SUV e o golpista pegou as fotos e anunciou com um valor de R$ 40 mil a menos. Veio um comprador de São Paulo aqui olhar e fez o depósito, pois estava conversando com o suposto vendedor e São Paulo, por isso a gente imagina que seja uma organização criminosa de lá que atua em cidades menores por ser mais fácil pela boa fé das pessoas”, comenta.

Fernando Adriano da Silva é morador de Rio do Sul e teria sido mais uma das vítimas se não tivesse desconfiado dos criminosos. “Eu anunciei meu carro numa sexta-feira e no sábado um homem interessado entrou em contato comigo, disse que ele estava desfazendo uma sociedade e para indenizar o sócio dele ele compraria meu carro para o sócio. Eu disse que não me importava sobre os negócios dele e apenas queria vender o carro. Na hora ele pediu para que eu tirasse o anúncio pois era certo que ele iria ficar com o veículo. Na terça-feira seguinte os sócios dele vieram de São Paulo ver o veículo, nesse momento eu achei estranho pois os dois homens que vieram eram um pouco mal encarados e incompatíveis com o que o homem falou e com a nossa cidade. Eles então falaram que iriam ficar com o carro e fez um depósito na minha conta de R$50,00 e me enviou o comprovante, depois fez um depósito falso de R$ 140 mil, que não caiu na minha conta e então eu não passei o carro para o nome dos rapazes que vieram olhar. Ele até me falou que iria demorar um pouco para cair o dinheiro e os rapazes ficaram me pressionando muito para passar o veículo, mas eu não fiz pois conferi na minha conta e o valor não tinha caído. Quando falei aos dois rapazes que eu estava indo na delegacia registrar um Boletim de Ocorrência eles sumiram, então não sei se eram cúmplices do golpista ou se eram vítimas também”, finaliza.