Alto Vale
Foto: Divulgação

Reportagem: Rafaela Correa/DAV

Para a família de Camila Correa Hinkel e Juares Hinkel, de Ituporanga, a história de superação da filha Anna Luíza será para sempre um marco de vida e esperança. É que após uma gestação gemelar, eles descobriram que uma das meninas sofria com cardiopatia. Foi um processo longo, de muitas lutas, mas hoje a menina está curada e leva uma vida normal.

Anna Luíza nasceu em maio de 2018. Ela pesou menos que a irmã Laura, mas como era uma gestação gemelar a diferença parecia normal, até ouvirem um sopro leve nos batimentos cardíacos, a princípio não parecia grave, mas os pais ficaram atentos.

Com 15 dias, Camila conta que percebeu que Anna não estava se desenvolvendo como a irmã. “Eu acordava ela a cada hora e complementava a mamada com fórmula. Mas mesmo assim ela mamava menos que a irmã. Então levamos novamente no pediatra. Ele constatou que o sopro estava mais evidente e as batidas do coração descompassadas, então nos encaminhou para um ecocardiograma em Rio do Sul, com uma cardiologista que trata adultos, pois não temos cardiologista pediatra na nossa região”, lembra.

O exame levou alguns dias para acontecer e na data da avaliação, a pequena já estava com 28 dias. “O momento em que o nosso chão se abriu. A médica que fez o exame disse que ela tinha um sopro importante. Uma abertura abaixo da válvula esquerda, onde o coração fazia o trabalho de bombear o sangue duas vezes e parte do sangue ia para o pulmão esquerdo, o que fazia com ele ela ficasse ofegante e cansada na maior parte do tempo. Ela disse que isso só poderia ser revertido através de cirurgia.A partir daí, nós passamos a correr atrás de especialistas”, conta.

Camila e Juares levaram a filha para consultas em outras cidades e passou a tomar medicamentos que dariam mais condições de vida a ela, aumentando a concentração de leite para fazer com que ganhasse peso, mas em três meses não surtiu efeito e Anna parecia piorar a cada semana.

“Um certo dia, ela engasgou com o leite concentrado e eu a vi sem vida. Ficou um tempo sem respirar, roxa. Nesse dia recorremos ao pediatra dela, que fez o encaminhamento para outra cidade, no Hospital Infantil de Joinville. Fomos atendidos no ambulatório pelo cardiologista, um dos anjos nas nossas vidas.”

Nesse período, Anna ainda era bem menor em relação à irmã. O médico ficou assustado com o caso da menina, não apenas pela cardiopatia, mas pelo que ela havia provocado no organismo, o quadro de desnutrição. “Imediatamente ele pediu para ficarmos na parte da tarde onde a especialista iria fazer alguns exames nela e analisar o melhor tratamento. Ela notou que o coração da Anna estava tomando conta de mais de 50% da região torácica e o pulmão esquerdo muito dilatado. Ela precisava de intervenção cirúrgica o quanto antes, mas para isso precisava ganhar peso. Ela tinha quatro meses e pouco mais de 3kg. Nos internou no mesmo dia”, relembra.

Depois Anna passou por várias internações e entres idas e vindas conseguiu aumentar um pouco o peso para finalmente passar pela cirurgia que resolveria o problema.

“Anna passou muito bem nessa primeira etapa. Ficou dois dias na UTI. Mais uns dias de quarto e fomos para casa. Ainda com sonda nasogástrica, pois tinha dificuldade para mamar. Durante esse período, nós tivemos grande apoio da nossa família. Minha mãe mudou-se para minha casa e passou a cuidar dos meus outros três filhos, do meu marido e da minha casa. Muitas pessoas da nossa família ajudavam ela. Ficamos 14 dias em casa e precisamos voltar ao hospital com urgência. Anna estava com a saturação muito baixa e eu a levei quase sem vida ao hospital da cidade. Chegando no hospital, depois de muitos exames, Anna piorou e foi para a UTI. Constatou-se que ela estava com as cordas vocais paralisadas em decorrência da intubação”, explica.

Com todos os problemas, ela seria avaliada por mais um especialista no dia seguinte e seria conduzida ao centro cirúrgico para fazer uma traqueostomia, mas segundo a mãe da criança, muitas pessoas se uniram em oração e felizmente, durante a noite ao lado dela, ouviram um gemido, o que não estava dentro da expectativa médica. Na avaliação antes do procedimento, o otorrinolaringologista verificou que a corda vocal já estava se movimentando. “Nós sabemos que foi um milagre e que Deus ouviu as nossas orações. Passamos por mais alguns momentos delicados naquele período. Anna estava instável. Ficou muitos dias na UTI e precisava de oxigênio na maior parte do tempo. Ficamos internadas 32 dias.”

Elas voltaram para casa com várias recomendações médicas e dificuldades para se movimentar, mas o tempo foi passando e as coisas foram melhorando, até decidirem fazer a cirurgia de correção total. Desde então ela apresentou um quadro de melhora significativa e embora precise fazer acompanhamento periódico, a cura já é uma realidade.

“Eu aprendi muita coisa no hospital e fazia em casa com ela. Durante o tempo de internação alguns médicos a desenganaram e disseram que ela tinha uma baixa expectativa de vida, que era um milagre estar viva. A cardiopatia dela era uma das mais fáceis de tratar, mas como ela ficou muito tempo sem um tratamento, ficou muito debilitada.”, afirma.

Para Camila, que passou maior parte de seu tempo no hospital, ver a filha passar por tamanho sofrimento não foi fácil, mas nem ela e nem a família perderam a esperança de viver dias melhores ao lado da pequena.

“A gente sempre ouviu mais a expectativa de Deus. Começamos a introduzir a alimentação, voltamos ao médico depois de um tempo e resolvemos fazer a cirurgia de correção total que era de alto risco. Ela ficou viva através de uma máquina, mas passou bem. No sexto dia após a cirurgia, surpreendentemente, ela ganhou alta e então começou a viver, porque até então era como um cristal, vivíamos com medo. Na última consulta, essa semana, o médico ficou muito satisfeito, tudo melhorou. Agora ela é uma criança que vive normalmente com os irmãos dela, que brinca, corre, cai e é feliz”, finaliza.