Cultura
Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal

É nos momentos de virada na vida, como as passagens de ano, que o olhar dos mais céticos costuma se voltar para as religiões e crendices. Mesmo superstições de origem desconhecida podem ganhar força de ciência, diante do desejo de obter algo difícil de alcançar.

No ano novo, os rituais de pular as sete ondas, guardar sementes de romã na carteira e escolher a cor ideal para a roupa são alguns dos mais comuns. Há, também, quem recorra ao tarô, à astrologia e até ao poder das pedras.

É por isso que, às vésperas do réveillon, o G1 apresenta algumas crenças holísticas e “supranaturais” – e, portanto, sem comprovação científica – para entender por que as pessoas se agarram a elas, especialmente, nesta época do ano. O que podem dizer as cartas, os planetas e as pedras sobre nós?

Superstições e crendices

Para o filósofo da religião Agnaldo Cuoco Portugal, professor da Universidade de Brasília (UnB), as superstições “têm um papel cultural de fundo religioso” no Brasil. Resistentes ao tempo, elas deixaram de ser entendidas como inimigas da fé e foram incorporadas às crenças religiosas.

“Uma maneira de entender isso é que nós procuramos significados para orientar a vida, para responder ao problema da fugacidade da existência.”

Pastor mostra romã para noivos — Foto: Fred Banionis/VC no G1Foto: Fred Banionis/VC no G1

O professor explica que grandes teólogos medievais, como Tomás de Aquino, diziam que “a superstição era mais inimiga da fé que o ateísmo” – por ser entendida como uma charlatanice, do ponto de vista religioso.

Já o conceito moderno avança sobre o campo da religião e reconhece as superstições como crenças. “O padrão para se avaliar não é mais o da teologia e da ortodoxia religiosa, mas do que é possível ser comprovado.”

RJ: Mulher lança flores ao mar na Praia Vermelha, em uma tradição anual dos seguidores da religião umbanda — Foto: Pilar Olivares/ReutersFoto: Pilar Olivares/Reuters

A mudança no calendário, segundo Portugal, aflora a espiritualidade dos brasileiros porque está ligada à busca por “caminhos de salvação”.

“Nessas datas, você percebe que o tempo passa, que está envelhecendo e se aproximando da morte. Isso gera uma desordem existencial. Para reorganizar a vida, você recorre a símbolos que deem a impressão de que essa fugacidade não é o principal.”

Comer lentilhas e optar por animais que não andam para trás na ceia de Natal e de ano novo, guardar folhas de louro ou sementes de uva e colocar uma nota de dinheiro no sapato têm um peso ainda maior no campo das crendices por serem rituais.

“Não são só crenças, mas práticas. Não é apenas acreditar, mas de fazer por onde. O rito permite confrontar, por meio de uma ação, essa percepção desesperadora da fugacidade do tempo.”

Cartas de tarô com pedra redonda no centro e cristais brancos, do terapeuta holístico Bernardo Morais (@moraisbernardo) — Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal
Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal

É neste ponto que também se encaixam as crenças holísticas, geralmente associadas a rituais – como jogar as cartas do tarô, fazer o mapa astral e energizar as pedras para situações específicas.

Os arquétipos do tarô

O terapeuta Bernando Morais, que trabalha com o tarô há quatro anos e com as pedras desde 2010, explica que o campo holístico é “uma forma abrangente de enxergar o ser” – que engloba os domínios espiritual, filosófico, astral e energético.

Segundo ele, as cartas têm o potencial de levar as pessoas ao autoconhecimento, “se estiverem dispostas”. O baralho tem 78 arquétipos representados – cada um deles com significado próprio, mas que podem revelar mensagens diferentes em cada contexto.

“Eu costumo de dizer que o tarô dá muito tapa na cara. É preciso ter coragem.”

Cartas de tarô com cristais brancos, do terapeuta holístico Bernardo Morais (@moraisbernardo) — Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal

A dinâmica é simples: a pessoa faz uma pergunta, o tarólogo embaralha as cartas e ela própria escolhe qual vai puxar. “O que acontece é o inconsciente ou subconsciente escolhendo aquilo que a pessoa não consegue expressar ou entender.”

A busca pelo desconhecido e a curiosidade por antecipar os acontecimentos fazem com que, no réveillon, a demanda pelo tarô seja ainda maior. “O pessoal procura muito para saber se vai perder isso ou ganhar aquilo. É nítido nessa época.”

“Querem fazer pequenos rituais, como se tivessem mais chances de conseguir.”

Cartas de tarô com pedra redonda no centro e cristais brancos, do terapeuta holístico Bernardo Morais (@moraisbernardo) — Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoalFoto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal

O terapeuta holístico, porém, recomenda que a busca pelo tarô seja mais profunda. “Investigar como foi o ano que está acabando, o que ficou oculto, quais potências podem melhorar, para que, no ano seguinte, as coisas possam, efetivamente, ir se encaminhando.”

A influência dos astros

A astrologia também costuma ser procurada para “fazer revelações” em momento de virada, segundo as pesquisadoras Tatianny Leão e Delma Sandri. Mas, assim como Bernardo Morais, elas acreditam que os astros têm um potencial maior de influência na vida das pessoas.

Assim como a Lua é capaz de influenciar as marés e o Sol garante toda a vida humana, animal e vegetal, os outros sete (ou oito, se incluirmos Plutão) planetas do Sistema Solar também afetariam o funcionamento da Terra.

A forma como a iluminação das cidades é projetada tem dificultado a observação dos astros em Itajubá, em Minas Gerais — Foto: Cleber Gonçalves/BBC
Foto: Cleber Gonçalves/BBC

“São forças, energias disponíveis que você pode ou não acessar”, explica Tatianny, que trabalha com astrologia ocidental (baseada no ciclo solar) há cerca de 3 anos. “Até existe o caminho da adivinhação, mas o estudo é de autoconsciência.”

“A energia está disponível. Se você quiser e acreditar, fica mais fácil, porque você pode agir de maneira consciente.”

Os registros dos astros dependem de muita técninca e conhecimento — Foto: Carlos Fairbairn/VC no TG
Foto: Carlos Fairbairn/VC no TG

A imersão na astrologia começa com o mapa astral, que é uma espécie de “fotografia” dos astros no exato momento de nascimento de qualquer pessoa – dia, mês, ano, hora e local são fundamentais.

“Ele é sempre o mesmo, usado como uma mapa de navegação na Terra”, afirma Delma, que trabalha com astrologia védica (baseada no ciclo lunar) há quatro anos. “Você percebe que tudo no mapa foi você mesmo que atraiu: família, parcerias, trabalho.”

Talvez por isso, a astróloga diz que a maioria das pessoas que a procuram buscam apenas “futilidades”. Segundo ela, são raros os casos de clientes que topam fazer um trabalho profundo de autoconhecimento.

Um sadhu, homem santo do Hinduísmo, pratica ioga durante o entardecer na Dashashwamedh Gath, margem do rio Ganges em Varanasi, na Índia — Foto: Sanjay Kanojia/AFP
 Foto: Sanjay Kanojia/AFP

“A tradição judaica cristã entende que somos seres humanos buscando a espiritualidade. Já o hinduísmo compreende que somos seres espirituais vivendo uma experiência humana. Quando nos damos conta disso, o sentido da vida muda completamente.”

“A experiência na Terra é transitória e não estamos aqui parar passear, ter prazer e dinheiro. A gente se apega às coisas do mundo e esquece que é alma.”

O que a astrologia prevê para 2019?

A chamada “regência do ano” é a mesma em todos os cantos do mundo. Segundo Tatianny, 2019 está sob a regência de Marte. O planeta simboliza a vontade, “para onde você quer ir, qual a sua força, o guerreiro de cada um”.

A foto de Marte é uma composição de mais de 100 fotos do planeta, tiradas pelas sondas Viking nos anos 70. — Foto: Nasa (via AP)
 Foto: Nasa (via AP)

Por representar o guerreiro, Marte também está ligado aos conflitos – que têm maior chance de acontecer nos próximos 12 meses. Isso pode ocorrer tanto no campo macro – da política nacional e internacional – como dentro de casa, no trabalho e nas relações amorosas.

Além disso, a Terra está passando pelo “período de Saturno”, que tem 36 anos de duração (até 2053) e é caracterizado como um turno de revelações, segundo Delma.

“A energia de Saturno tira tudo debaixo do tapete, faz a faxina na casa.”

“É o tempo de ‘bateu, levou’. Por um lado é ótimo, porque tende a resolver os problemas de uma vez.”

A missão tem o objetivo de descobrir a estrutura profunda de Júpiter e o segredo de sua formação — Foto: Divulgação/Alejandro Diaz
Foto: Divulgação/Alejandro Diaz

Até o fim de 2019, o planeta Júpiter vai estar posicionado na casa de origem, do signo de Sagitário. “É uma regência muito significativa, que levou 12 anos para voltar a acontecer”, explica Tatianny. “É um momento de expansão da consciência e do sentido da vida.”

“O lado sombrio de Sagitário é o fanatismo religioso. Ao mesmo tempo que expande a visão, ele também poder cegar.”

 

A energia das pedras e das cores

Pedras coloridas — Foto: Luiza Garonce/G1
Pedras coloridas — Foto: Luiza Garonce/G1

Com todas as superstições, cartas do tarô e mapas da astrologia, as pedras e as cores podem ser um “complemento energético” para o dia a dia. “Cada pedra, assim como a gente, emite energia. Cada cor [emite] uma frequência”, explica o teraputa holístico Bernardo Morais.

“Por serem cristalinas e geométricas, as pedras têm vibração constante e nunca serão desestabilizadas.”

Ametista em estado bruto — Foto: Luiza Garonce/G1
Ametista em estado bruto — Foto: Luiza Garonce/G1

Segundo ele, existem pedras para todo tipo de finalidade: proteção, limpeza espiritual, amor e assim por diante. “Elas podem ser polidas ou brutas, o que importa é a estrutura interna.”

Aquelas em formato de canudo, como a turmalina, por exemplo, são as que transmutam energias. Isso significa, de acordo com os adeptos da teoria, que os minerais absorvem uma frequência e liberam outra.

“Elas renovam a energia automaticamente. Funcionam como uma pilha: de um lado se concentram os íons negativos e, do outro, os positivos”, explica Morais.

Meditação com cartas de tarô e pedras, aplicada pelo terapeuta holístico Bernardo Morais (@moraisbernardo) — Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal
Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal

Seja qual for a pedra, o terapeuta explica que o mais importante é ter um propósito firme. “É como o católico que guarda a imagem do santo, como se aquela energia estivesse sempre com ele. Com a pedra é igual, eu olho pra ela e estou sempre reafirmando minha fé, minha crença. Me conectando com aquela intenção.”

“Se eu não acredito que ela funciona, não faz sentido carregar comigo. Mas se eu acredito, é bom saber como usá-las.”

Pedra pirita em pingente de colar — Foto: Luiza Garonce/G1
Pedra pirita em pingente de colar — Foto: Luiza Garonce/G1

As pedras podem ser colocadas em acessórios – como colares, anéis e brincos – ou em ambientes estratégicos, como a mesa de trabalho e a cabeceira da cama. É crucial, segundo Morais, saber o que cada uma faz com as energias do ambiente.

Pedra usada em anel — Foto: Luiza Garonce/G1
Pedra usada em anel — Foto: Luiza Garonce/G1

“O que muita gente faz que é prejudicial, por exemplo, é usar pedras pretas no colar o tempo todo, como proteção. Essa região é muito próxima da garganta, que é o chacra da expressão. Como a pedra preta faz limpeza, ela acaba levando tudo embora e pode bloquear esses aspectos da pessoa.”

O terapeuta sugere a meditação com a pedra, para tentar entrar em contato com aquela energia, e fazer “florescer no subconsciente” aquilo que deseja mudar ou agregar. “O efeito disso vai depender da intuição e do quanto a pessoas acredita na terapia.”

Meditação com cartas de tarô e pedras, aplicada pelo terapeuta holístico Bernardo Morais (@moraisbernardo) — Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal
 Foto: Bernardo Morais/Arquivo pessoal

Veja as pedras ideais para cada um dos sete chacras (pontos de absorção e transmissão de energias no corpo):

  • “Chacra da coroa” (cabeça): o cristal branco, que é transparente, traz clareza e objetividade
  • “Terceiro olho”: ametista para despertar a intuição e transmutar pensamentos negativos
  • Chacra da garganta: quartzo azul para atrair calma, tranquilidade e expressão com verdade
  • Chacra do coração: quartzo rosa para ativar o lado feminino e da amorosidade ou o quartzo verde para aflorar a vitalidade
  • Chacra do “plexo solar” (estômago): pedras amarelas e laranjas, como o citrino, para trabalhar o poder pessoal e a prosperidade
  • Chacra sexual (umbigo): pedras laranjas, como a calcita ou a cornalina, que trabalham “o tesão de viver” e afloram o sentimento de garra na busca por algo que se deseja
  • “Muladhara” (períneo): pedras vermelhas, como jaspe, e pretas, como a ônix, para trabalhar o ancoramento, o contato com a terra e a conexão com o presente
Pedras coloridas — Foto: Luiza Garonce/G1
Pedras coloridas — Foto: Luiza Garonce/G1

Da mesma forma, acredita-se que as cores podem influenciar decisões e modificar energias. A cromoterapia acredita no poder das cores pela frequência que emitem – especialmente através de fluidos, como a água.

“A Gestalt fala muito da influência das cores na psiquê. Mas, se pensarmos no espectro de luz que cada cor emite, vemos que ela também tem uma vibração”, explica Bernardo Morais.

“De acordo com cada cor, você tem uma frequência de vibração energética.”

Pedra rosa — Foto: Luiza Garonce/G1
Pedra rosa — Foto: Luiza Garonce/G1

Talvez por isso, as cores assumem importância na escolha das roupas em momentos importantes, como as viradas de ano. “Você escolhe um cor por um propósito, seja pela forma como você está vibrando ou por como você quer se sentir dali pra frente.”

Segundo ele, o significado que as cores assumem socialmente adentrou o campo das crendices e não tem, necessariamente, relação direta com a frequência que cada uma emite.

“A eficácia vai da força do propósito de cada um. Se eu acredito que o amarelo vai trazer algo de bom pra mim, isso vale mais que escolher uma roupa só porque ela é bonita.”

Veja os significados mais populares de cada cor:

  • Branco: paz, calma, pureza, relação com o divino
  • Amarelo: brilho, vida, esclarecimento, riqueza, conforto, iluminação, esperança
  • Vermelho: coragem, amor, criatividade, desejo, sexualidade
  • Azul: calma, tranquilidade, paz, relação com o divino, verdade, intelectualidade, confiança
  • Verde: natureza, esperança, sorte, alegria, juventude, equilíbrio, saúde
  • Laranja: fidelidade, consciência, prosperidade, alegria, sucesso
  • Rosa: romance, paixão, resgate do feminino, suavidade, delicadeza
  • Roxo: equilíbrio entre corpo e alma, espiritualidade, introspecção
  • Cinza: estabilidade, serenidade, sabedoria
  • Preto: proteção, poder, elegância, mistério
Por Luiza Garonce, G1 DF