Alto Vale
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Cláudia Pletsch/DAV

“O ser mais forte do mundo é a mulher”, essa é a frase dita por Mafalda Lunelli Ropke, uma moradora de Presidente Getúlio que carrega uma história cheia de superação assim como outras milhares de mulheres em todo país. Mas a luta da empresária, natural de Witmarsum, é parecida com a de muitas mulheres que nasceram e cresceram na região, e de tantas outras que sentiram na pele a tragédia que o Alto Vale sofreu com a enxurrada de dezembro do ano passado que deixou 21 pessoas mortas. Para salvar a família e a própria vida, ela ficou por cerca de três horas com a filha e a sobrinha no topo de uma árvore esperando a água baixar e viu a correnteza levando casas, carros, animais e tudo que ela havia construído embora.

Mas a história de superação de Mafalda começa muito antes da enxurrada. Ela conta que nasceu no interior de Witmarsum e trabalhou na lavoura até a idade adulta, não teve oportunidade de estudar mas seu sonho sempre foi ser independente e ter seu próprio negócio. Depois de casar e construir uma família ela não deixou os planos de lado, e depois de se aposentar, aos 42 anos, em 2012, comprou duas máquinas de costura usadas e começou a trabalhar na sala de casa. O trabalho virou fonte de renda também para as duas filhas que começaram a trabalhar com a mãe ainda na adolescência, e a confecção cresceu tanto que o espaço ficou pequeno. Depois de passar a produção para a garagem, Mafalda precisou construir um espaço somente para a empresa que hoje já conta com 20 funcionários. “Sempre sonhei em ser independente financeiramente, realmente vencer na vida. Eu vim para Presidente Getúlio aos 20 anos de idade, fui criada na agricultura e eu nunca consegui estudar, assim eu vim para cá e me profissionalizei no setor da costura. Trabalhei em uma camisaria 11 anos e fui adquirindo experiência. O sonho de ser dona do próprio negócio sempre existiu”, conta.

A luta para ter suas próprias conquistas veio desde a infância e Mafalda conta que não foi fácil se profissionalizar, já que na época a mulher não podia trabalhar fora ou estudar. “Onde eu morava era um caminhão que puxava os estudantes e era considerada uma questão de respeito uma moça não andar no meio de um monte de rapazes. O mundo sempre foi muito machista, sempre tiveram muito mais oportunidades para homens que para mulheres. Venho de uma família onde meu pai era muito machista, meu pai nasceu em 1927, era uma época em que a mulher só servia mesmo para lavar, passar e cozinhar. Essa era a forma como ele foi criado também”, relata.

Mas a história que poderia ser repleta de conquistas também passou por momentos que ninguém poderia imaginar. Foi na noite de 16 e madrugada do dia 17 de dezembro de 2020 quando uma enxurrada atingiu o bairro Revólver em Presidente Getúlio que a casa e empresa da família acabaram sendo destruídas. “De madrugada meu esposo levantou e viu que estava vindo muita água, nosso primeiro pensamento foi correr e levantar as jaquetas que estávamos costurando então a gente se dirigiu para a confecção que dá uns cinco metros da nossa casa,. Aí a gente foi lá e começou a erguer as coisas e chamei minha filha e vizinhas para ajudar. De repente aquela água tomou uma proporção enorme, meu marido acabou ficando dentro de casa e não conseguia mais voltar, o namorado da minha filha também não conseguia mais voltar nos ajudar e dentro da confecção ficou eu minha filha e a prima dela. A água ficou muito alta e não conseguíamos sair pela janela e a gente ficou dentro da água para morrer mesmo, de repente eu olhei na porta, deu um relâmpago e eu vi que tinha uma árvore de jabuticaba bem em frente e foi ali que eu pensei que a gente poderia tentar se abrigar, nessa hora a água já passava de 1,5 metro. A gente usou alguns entulhos e um ganho que estava suspenso para subir na árvore e ficamos lá por cerca de três horas, vimos carros, casas, árvores e animais passarem em baixo de nós e foi muito triste ver tudo isso. Depois que a água passou e descemos o reencontro com meu marido foi muito emocionante pois todos achavam que a gente tinha morrido. Tivemos um susto também pois o namorado da minha filha ficou desaparecido mas conseguiu se agarrar em uma árvore quando estava sendo levado e sobreviveu e isso eu considero um grande milagre. O que aconteceu com a minha família em especial eu considero um milagre”, relata.

Depois de ter passado por uma noite de terror a empresária conta que nos dias seguintes por muitas vezes pensou em desistir ao ver que tudo que havia construído durante anos tinha sido levado. “Não é uma empresa de muitos funcionários, mas é muito sólida e com as contas todas em dia e ao longo desses nove anos eu e minha família fomos conquistando todos os nossos sonhos, a gente conquistou carro zero, casa confortável e no final do ano a gente tinha a vida bem planejada, tudo certinho e tínhamos decidido nos aposentar mesmo. A gente perdeu todos os móveis, utensílios e roupas da casa, nossos três carros incluindo o da nossa filha mais nova foram levados e cinquenta máquinas de costura. O que não foi embora das máquinas ficou na lama. Nossa casa de aluguel também foi atingida e tudo foi levado. Nem mesmo uma mesa ficou”, conta.

Depois de receber a solidariedade de vizinhos, amigos, familiares e até desconhecidos Mafalda revela que estabeleceu a meta de colocar a confecção em funcionamento até o início de janeiro, e dessa forma no dia 4 ela iniciou os trabalhos novamente junto com a equipe. Agora ela já conseguiu reformar boa parte do prédio que foi prejudicado e teve ajuda para adquirir máquinas de costura para que possam trabalhar. Hoje ela está vendo a vida ser reconstruída, e como pilar e força da família ela considera a mulher o ser mais forte que existe. “Eu pensei em desistir, tem momentos que eu ainda penso em desistir. A gente sabe que o nosso bem maior é a vida, mas as vezes a gente não sabe o que fazer com a vida pois tudo foi levado, mas a lição que eu tirei é que a gente não pode parar nem desistir. O sucesso e a força vêm de dentro da gente, isso ninguém pode nos tirar. Eu não ganhei nada de mão beijada, eu conquistei meus sonhos e não desisti e não vou desistir. E eu digo que o ser mais forte que existe na face da terra é a mulher, ninguém supera nossa força”, finaliza.

 

Propriedade após a enxurrada

Empresa hoje em funcionamento