Alto Vale
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Reportagem : Helena Marquardt

Um dos júris populares mais aguardados em Santa Catarina finalmente tem data e hora para ser realizado. Júlio César Leandro, acusado de arrastar Maristela Strighini por mais de 800 metros em abril de 2014, em Rio do Sul, vai ser julgado no dia 5 de maio no Fórum da cidade. O caso que marcou o Alto Vale e comoveu pessoas de todo país teve muitos desdobramentos, mas pode ter um desfecho após mais de oito anos.

O anúncio da data de julgamento era um dos momentos mais esperados pela vítima, que já passou por 53 cirurgias desde o acidente e ainda enfrenta vários problemas de saúde, mas traz uma sensação de que agora a justiça pode ser feita. “Quase nem acreditamos ao saber da data. Depois de tanto tempo de sofrimento, apreensão, passa um turbilhão na cabeça, esperamos que finalmente a justiça seja feita”, desabafou Maristela.

Após o acidente, no dia 13 de abril, ela ficou entre a vida e a morte e tinha apenas 1% de chance de sobreviver, mas resistiu a todos os ferimentos e hoje ainda luta para reconstruir o corpo e a vida. A mulher também enfrenta outra batalha judicial já que até hoje não conseguiu pagar as despesas das cirurgias e está sendo processada pelo médico que realizou a maioria dos procedimentos e com quem tem uma dívida de mais de R$700 mil.

Com 47 anos, a moradora de Lages, que na época do acidente estava em Rio do Sul para participar do Motosul, conta que as sequelas dos ferimentos graves que sofreu ainda se agravam cada dia. “Sinto dores o tempo todo e a cada dia vejo que estou perdendo mais os movimentos das mãos, não consigo girar a maçaneta de uma porta. Meu joelho também está muito complicado, tenho que usar tornozeleira. Tive que passar a usar óculos porque tive lesão no globo ocular em virtude do acidente. Teria que fazer muitos outros procedimentos médicos, mas não tenho vergonha de dizer que não puder fazer porque não tenho condições financeiras”, conta.

Apesar da demora pelo julgamento ela ressalta que se sente agradecida por ter sobrevivido. “O meu caso foi um dos casos mais raros, porque até hoje não há quem tenha sobrevivido depois de ser arrastada por 800 metros e perder a parte frontal inteira do corpo. No começo a gente não sabia como iria ser, se eu ia conseguir colocar silicone, tirar a pele ou melhorar a questão estética. Primeiro tentaram me salvar, depois começaram a mexer no rosto que quebrou todo e depois os médicos iam se reunindo para estudar o que podia ser feito”.

Além de todas as consequências físicas, ela relata que também permanece com marcas psicológicas e precisa lutar contra a síndrome do pânico e depressão, mas afirma que a maior dificuldade é aceitar a demora para que a história tenha um ponto final. “Hoje eu vejo que para eles era muito mais fácil eu ter morrido, iam pagar uma indenização para minha filha e eu não ia estar aqui para provar o que aconteceu”, completa.

Após o acidente, Maristela ingressou com dois processos contra motorista que é acusado de ter causado o acidente, um cível e outro criminal, mas ressalta que o réu, Júlio Cesar Leandro, hoje tem uma vida normal.“Ele terminou a faculdade e nunca foi afetado como eu, meu corpo, eu perdi toda a pele da parte da frente, hoje não me acho mais uma pessoa normal”.

Questionada sobre qual é o fim esperado para o julgamento, a moradora de Lages comenta que o principal objetivo não é o ressarcimento financeiro, mas sim justiça. “Quero que ele vá a júri popular e não interessa quantos anos de cadeia ele vai pegar, ele nunca vai sentir 1% da dor que eu senti”, desabafa.

Acusação X Defesa

O advogado de acusação, Luiz Vicente de Medeiros adianta que no júri vai sustentar a denúncia que não foi um mero acidente como alega a defesa. “Foram duas tentativas de homicídio qualificadas, tendo em vista que o acusado usou o carro como se usa uma arma, para matar”. afirmou.

O advogado de defesa de Júlio César Leandro, Paulo Voltolini, foi procurado pela reportagem, mas informou que só vai se manifestar sobre o caso em data mais próxima a realização do júri.