Alto Vale, Saúde
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Cláudia Pletsch/DAV

A pandemia não acabou em 2021. Ao contrário do que esperava o mundo inteiro, a situação não melhorou, apenas se agravou. Existem profissionais e especialistas que afirmam que o vírus nunca deu uma trégua e que a sensação de alívio que a população sentiu nos últimos meses apenas serviu para tornar a situação ainda mais difícil até chegar ao colapso. O colapso na saúde observado desde o início do ano em outros estados chegou a Santa Catarina e ao Alto Vale, hoje todos os hospitais com UTI exclusiva para receber pacientes com covid-19 da região estão atuando com 100% da capacidade e com profissionais da saúde esgotados fisicamente e emocionalmente.

De acordo com dados levantados na tarde dessa quinta-feira (4), o Hospital Regional Alto Vale de Rio do Sul, que recebe pacientes de diversos municípios da região atua com 100% de lotação na UTI exclusiva para coronavírus, dos 10 leitos disponíveis, todos estão ocupados. Segundo a diretora do Hospital Doutor Valdomiro Coulatti de Ibirama, Silvana Leite da Costa, na tarde dessa quinta-feira a UTI exclusiva para pacientes com covid-19 atingiu 100% da lotação. Além disso, a UTI geral da Unidade também está com 90% da lotação, já que dos 10 leitos disponíveis, nove estão ocupados e dois desses são de pacientes com coronavírus. Na enfermaria covid, quatro pacientes estão internados. O Hospital Bom Jesus de Ituporanga, também atende com capacidade máxima. São cinco leitos disponíveis para pacientes com coronavírus e todos ocupados. Dos outros 10 da UTI geral, seis estão recebendo pessoas com covid. Os 13 leitos de isolamento respiratório disponíveis na Unidade também estão lotados.

A enfermeira do Hospital Doutor Valdomiro Coulatti de Ibirama, Débora Gonçalves Ferreira, diz que o momento é de muita dificuldade, mas atua na linha de frente todos os dias com fé. “Eu gosto muito do que eu faço, é um prazer para mim estar atuando na linha de frente, mesmo estando cansada, exausta e todo dia enfrentando uma batalha, mas acredito que a gente tem um propósito na vida e eu acredito que o meu é estar ajudando as pessoas e devolvendo a esperança e felicidade para as famílias, eu sei que estamos fazendo o nosso melhor”, relata.

A enfermeira da vigilância Epidemiológica da Regional de Saúde de Rio do Sul e do Município de Aurora, Ana Paula Sebold Zimermann, ressalta a dificuldade de compreensão da população e dos governos para com a doença. “A dificuldade de entendimento da população e até dos governos está gerando ainda mais ansiedade, medo, receio e esse estresse emocional em nós profissionais da Saúde. A gente observa que uma grande parte renega a pandemia, ou acredita em falsas promessas de tratamento. Nós temos atendido vários pacientes que fizeram o tratamento precoce com medicamentos sem comprovação e que pegaram o vírus e acabaram evoluindo até a óbito, então para nós isso é bastante frustrante”, relata.

Ana Paula ressalta ainda que a situação é crítica não somente para aqueles profissionais que atuam nas UTIs, mas também para os que atendem na atenção primária. “É lá que está inserido o profissional no meio do núcleo familiar, que vivencia esse drama da família que fica em casa por vezes sem notícias, sem poder ver o familiar em estado grave, então o profissional que está lá na ponta tem várias angustias. Além de lidar com a prevenção que é bem complexa eles tem que lidar com controle de casos suspeitos e positivos, lidar com a força policial e com tudo que circunda a doença. A gente lida com a evolução da doença, com o momento que o paciente vai para o hospital, com a hora que ele falece ou com a hora que graças a Deus ele vai para casa”, conta.

Geórgia Staudinger é coordenadora da Vigilância em Saúde de Ituporanga. Ela explica que nas últimas semanas os atendimentos têm dobrado, normalmente os quatro profissionais, sendo três enfermeiras e um médico, atendiam cerca de 30 pessoas por dia, hoje são 50 a 90. O que mais assusta a enfermeira é a gravidade da situação. “Ontem encaminhamos um paciente, a dura pena para o hospital e ele foi internado. Hoje de manhã encaminhamos mais uma que está aguardando vaga para internação. Eu estou indo para 20 anos de formação e nunca imaginei que passaria por uma situação dessas, que a gente só viu em filmes relacionados a epidemias. Nunca imaginei que iria passar por isso ao vivo, escrevendo a história realmente, vivendo na pele, no dia a dia mesmo”, avalia.

A Vigilância Epidemiológica é a primeira área da Saúde a ter contato com os infectados, e Geórgia ressalta o cansaço dos profissionais, pois além do coronavírus existem outros atendimentos necessários todos os dias. “O trabalho não só aumentou como dobrou. A demanda da covid principalmente dobrou e o trabalho da Vigilância Epidemiológica continua acontecendo com outras doenças e outros casos, está bem sobrecarregado o serviço”, relata.

A enfermeira Suhamy Pereira da Silva atua no município de Presidente Getúlio, ela relata que diariamente atendiam de 10 a 12 pessoas e há cerca de duas semanas já recebem mais de 50 pacientes por dia. “A responsabilidade já é muito grande quando você sabe que não tem nada, mas quando você entra no atendimento de covid e sai daqui sabendo que tem covid, a responsabilidade triplica porque sabe que pode causar a transmissão para várias pessoas, então o apelo é para a conscientização. Estamos trabalhando duro em todas as pessoas que atendemos, pedindo a conscientização, mas as pessoas precisam fazer sua parte”, conta.

Suhamy relata ainda a sobrecarga dos profissionais e os momentos que marcaram sua vida profissional. “A gente tem um horário de trabalho e todos os dias estendemos em pelo menos duas horas. No horário de almoço a gente fica aqui para atender os pacientes também, então tem uma sobrecarga maior de todos os profissionais. No ano passado teve um momento em que a gente recebeu uma paciente muito grave e teve que estabilizar, e por mais que a gente tenha todos os protocolos de atendimento e experiência, a gente sempre se assusta quando vê um paciente com gravidade, não posso negar isso”, comenta.

Nessa semana o diretor-técnico do Hospital Regional de Rio do Sul, o médico Marcelo Vier Gambetta, relatou a situação da Unidade, ele ressalta que as vagas que surgem são rapidamente ocupadas. “Já há alguns dias temos mantido assim como os demais hospitais do Alto Vale do Itajaí a ocupação de 100% dos leitos, sempre que surge uma vaga quer seja por óbito de pacientes ou por altas, em questão de horas esse leito já está sendo ocupado por algum outro paciente que aguardava em enfermaria ou com ventilação mecânica e que necessita algum tipo de suporte de UTI”, finaliza.