Alto Vale
Foto: Helena Marquardt

Reportagem: Rafaela Correa/DAV

Santa Catarina é um dos estados responsáveis pela maior produção de cebola do país. Só a Região da Cebola corresponde a 75% da produção do estado, mas nesta safra os produtores não têm muitos motivos para comemorar. É que em razão de alguns fenômenos climáticos, como estiagem, granizo e chuva com calor em excesso em diferentes fases do cultivo, a produção sofreu uma quebra de 25%. De acordo com a Epagri, 500 hectares foram perdidos e cerca de dois mil hectares parcialmente afetados.

A Epagri apontou ainda que os municípios mais atingidos pelos fatores que levaram a essa queda foram Aurora, Vidal Ramos, Ituporanga, Imbuia e Atalanta porque o granizo aconteceu na fase de bulbificação, momento em que a planta possui dificuldade em se recuperar. “Os principais fatores que levaram a essa queda de 25% foram primeiramente uma estiagem, que fez com que muitas regiões produzissem cebolas miúdas, principalmente nas regiões mais altas e nas produções mais tardias. Depois tivemos o granizo que foi o principal fator que afetou a região, principalmente Aurora, Vidal Ramos, Ituporanga, parte de Imbuia e Atalanta. Outro problema foi a chuva no final de dezembro e todo o mês de janeiro com chuva e calor, que dificultou o recolhimento das cebolas mais tardias. Além de prejudicar a produção, também tornou mais demorado o recolhimento, então a cebola pegou sol, chuva e calor, e isso leva a ocorrência de bacterioses, que são as prodridões”, explica o engenheiro agrônomo da Epagri e coordenador da Câmara Setorial de Cebola de Santa Catarina, Daniel Schmitt.

A quebra na produção catarinense nesta safra representa a perda de 500 hectares e mais de dois mil hectares parcialmente afetados. Mesmo com a queda, o preço médio da cebola ficou entre R$1,50 e R$1,70 por quilo. “Claro que tivemos vendas a R$2,50, mas também teve quem vendeu a R$1, e a gente faz a média considerando não apenas a caixa 3, mas a caixa 2, que geralmente é vendida pela metade do preço”, explica.

Djonattan Schutz mora em Ituporanga e trabalha com o cultivo da cebola há muitos anos. Nesta safra, por ter sido muito atingido pela seca e pelo granizo, ele conta que teve uma quebra de 50% na produção. “A gente teve um problema por conta da estiagem no início da safra. Estava com pouca água no reservatório e isso atrapalhou um pouco. Depois do plantio tivemos problemas também com o granizo. Na minha propriedade eu tive sete incidências de granizo que refletiram na parte folhar da planta e acarretou na queda de 50% da produção. Tive vizinhos que perderam tudo. Foi um ano muito complicado. Por hectare a gente perdeu, no preço atual, 20 toneladas por hectare a R$ 2, um prejuízo de R$40 mil por hectare”, conta.

Atualmente, a comercialização do produto está se encerrando e por isso começam as importações. Daniel afirma que em fevereiro o produto já entrou de forma significativa no país. “Só resta 2 a 3% para ser comercializada em Santa Catarina e isso significa muito pouco, algo em torno de 6 mil toneladas, o que é pouco porque o consumo é de cerca de 80 a 100 mil toneladas ao mês. A gente estima que o Brasil importe esse ano algo em torno de 200 mil toneladas. Obviamente falta cebola no mercado brasileiro e é necessário recorrer às importações, sobretudo da Argentina, que já foram significativas em fevereiro e isso acaba impactando nos preços porque falta cebola e o preço fica mais alto. O principal fornecedor é a Argentina, cerca de 70% vem de lá e a safra é bastante competitiva. De agora em diante ela vai abastecer o Brasil até junho ou julho, junto com a cebola branca do nordeste, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Mas a única fonte de cebolas vermelhas será da Argentina e alguma coisa do Chile”, comenta.

Expectativas para a próxima safra

Ao todo, Santa Catarina possui seis mil produtores, desse número, 5,2 mil são da Região da Cebola. Mas quando se fala em expectativas de plantio é necessário analisar o cenário como um todo, ou seja, avaliar os benefícios que cada cultura oferece. Na região, a próxima safra deve ter crescimento de 5 a 10% apenas, segundo a Epagri e esse percentual se dá pelo interesse dos produtores por outras culturas. “Pode aumentar um pouco já que as pessoas estão um pouco desanimadas com a cultura do tabaco e falam em diminuir a área e ir para a cultura da cebola, mas também existe a cultura de grãos, sobretudo a soja e o milho que estão vantajosas”, esclarece Daniel.

Como todos os dados são uma média, apesar de alguns cebolicultores terem perdido toda a produção é possível encontrar quem comemore os números. O produtor Almir Schafer, de Ituporanga teve um bom resultado e apesar da estiagem e outros fatores, conseguiu produzir mais de 30 mil quilos por hectare. A ideia é ampliar a área de plantio. “Trabalho com cebola há 35 anos. Do tempo que eu planto, a última safra foi a maior, plantei 36 hectares. Comecei a vender em novembro e terminei há alguns dias atrás. Tive uma média de 34 mil quilos por hectare e não tive perdas porque apesar da seca eu tenho um bom sistema de irrigação e consegui produzir bem. Para a próxima safra a ideia é aumentar umas quatro hectares. A média de preço foi boa para a minha propriedade, algo em torno de R$ 2,17 o quilo. Não dá para reclamar”, finaliza.