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“Queridos amigos de Rio do Sul, por trás de toda tempestade existe um lindo sol a lhes esperar”. Jean Carlos, de apenas seis anos, escreveu essa mensagem de esperança para as pessoas que foram atingidas pela enchente na cidade. As cheias devastaram ao Alto Vale e Rio do Sul foi o local mais afetado. No meio da tragédia, muitas pessoas se mobilizaram para ajudar, arrecadando donativos e fazendo atos de solidariedade. Em Treze Tílias, uma cidade do Oeste Catarinense, que fica a 250 quilômetros de distância, crianças como Jean Carlos manifestaram o desejo de enviar mais do que roupas e alimentos.

“Nós estávamos conversando, falando sobre as doações, e perguntaram se podiam mandar cartas”, explicou a diretora e proprietária do Espaço Recreativo Kinderhaus, Patricia Carminatti Chiavini. A unidade de ensino tem 15 crianças entre um ano e meio e nove anos. Eles fizeram uma carta coletiva e enviaram para o Diário do Alto Vale. Agora, os desenhos serão expostos para que toda a população possam ver a solidariedade expressada em traços das crianças.

São 17 desenhos no total. Na maioria deles, as crianças mostram casas bonitas, bem coloridas, e sem nenhum sinal de destruição. É assim que eles querem pensar em Rio do Sul: pessoas em segurança em locais livre de enchente. No desenho de Pedro Henrique, de sete anos, além da casa vermelha e do sol brilhando, ele ainda deixa um recado, dizendo “Espero que todos fiquem bem e voltem para suas casas logo”.

O pedido se tornou realidade. Depois que a chuva passou e o sol voltou, como falou Jean Carlos em sua cartinha, todas as pessoas que estavam nos abrigos voltaram para casa. Ao longo da enchente foram 1079 pessoas desabrigadas e cerca de 17 mil desalojadas.

Outro desenho recorrente nas cartinhas são os corações. As crianças transmitiram o amor e a compaixão pelas pessoas de Rio do Sul. Para Pedro Henrique a enchente trouxe uma grande lição. É “importante ajudar as pessoas porque podem ficar com fome e frio”, disse o menino na cartilha coletiva feita pelas crianças com a ajuda da professora. Maythe, quatro anos, fez um desenho. Nele, ela aparece em cima de um arco-íris, que poderia ser usado por cima das águas para as pessoas que precisam passar de um lado para o outro, mas não puderam, por causa da enchente.

Já Hannah, sete anos, demonstrou que mesmo com a destruição, ela ainda ama a natureza. Ela desenhou um mundo cheio de árvores e disse “Eu amo meu mundo, Deus abençoe vocês. Juntos somos mais fortes”. As crianças também lembraram seus entes queridos. Arthur, sete anos, que tem uma avó e uma madrinha que moram em Rio do Sul fez o desenho de uma casa especialmente para a madrinha “para você, dinda”, ele escreve, e ainda explicou porque é importante ajudar os outros desta forma: “Quero ajudar as pessoas a ficarem ‘feliz’, não gosto de ver as pessoas tristes”.

As cartas enviadas pelas crianças de Treze Tílias foram escritas e desenhadas no dia 8 de junho. Neste dia, as águas em Rio do Sul já começavam a baixar. A cidade viveu o ápice da enchente, quando, às 7h da manhã do dia 6, uma terça-feira, o Rio Itajaí-Açu alcançou 10,89 metros. A chuva cessou, as águas baixaram, mas os efeitos da enchente ainda devem ser vividos por longo prazo. O levantamento feito pela prefeitura de Rio do Sul para avaliar os gastos com a enchente que atingiu aponta que serão necessários cerca de R$ 12 milhões para recuperar a cidade.

O coordenador da Defesa Civil de Rio do Sul, Moacir Cordeiro, comentou a inciativa. “A gente percebe que por mais inocente que possa parecer uma frase escrita por eles, tem um significado para eles e isso pode ensinar bastante coisa para a gente. Isso mostra que mesmo a gente passando uma situação de dificuldade como nós passamos aqui em Rio do Sul, o que nos conforta é saber que nesses momentos tem pessoas em outro local, bem longe daqui, torcendo para que tudo dê certo e que bom que nenhuma vida foi ceifada em razão do desastre, isso mostra também que a população está se adaptando a conviver com esse tipo de situação”, disse Cordeiro. A carta e os desenhos ficarão expostas na Galeria Schroeder, para que a população possa apreciar a iniciativa. A galeria fica na Oscar Kirsten, no Centro.

 

Carta Coletiva

As crianças fizeram uma carta coletiva. Quem escreve é a professora e diretora do Espaço Recreativo Kinderhaus, Patricia Carminatti Chiavini.

“Foram semanas intensas de muita chuva, todos os dias pensávamos “agora o sol vai aparecer”, mas olhávamos para o céu e lá estavam as nuvens escuras carregadas de mais chuva. Ficamos dias sem poder brincar lá fora, mas isso era o de menos, pois em muitas cidades as pessoas perderam suas casas, seus móveis, seu sonho, seus documentos levados pela água.

Nossos pais ligavam a televisão e lá estavam muitas notícias, imagens e histórias comoventes sobre a destruição devido à chuva. E isso virou nosso assunto no Espaço Kinderhaus. Nós, enquanto professores, sabíamos que tinham alunos (as) e pais especiais, mas o que nós não sabíamos é que a solidariedade e compaixão seriam grandes e cheias de sentimento, sentimento verdadeiro de se colocar no lugar do outro, de dar um pouquinho do que se tem para ajudar.

Mas, o que nos tocou na alma é que a arrecadação não foi o suficiente e sugeriram em escrever cartas, fazer um desenho com o intuito de proporcionar um sorriso no rosto, um aconchego, um calor humano que, mesmo de longe, aquece o coração. Solidariedade no dicionário é definido por responsabilidade recíproca, indica qualidade de solidário e um sentimento de identificação em relação ao sofrimento dos outros.”

Suellen Venturini