Estado
Foto: Divulgação

Reportagem: Rafaela Correa/ DAV

Janaína Cevey é natural de Lages. A jovem de 31 anos tatua em estilo aquarela desde 2017, mas antes da tatuagem entrar em sua vida, ela já mostrava talento para diversas formas de arte. Durante anos, o talento era utilizado como um hobby, só nas horas vagas. Hoje ela trabalha exclusivamente com pinturas e tatuagem e o trabalho como designer gráfico ficou para trás.

A paixão pela arte veio muito cedo. Ela conta que quando criança gostava de tudo o que tinha ligação artística e que o ingresso neste ramo aconteceu aos poucos. “Desde criança eu fui muito ligada a tudo o que envolve arte, sempre fiz desenhos, pinturas, fui evoluindo sozinha mesmo e nunca cheguei a fazer curso, mas como sempre gostei fui descobrindo formas de me aprimorar, novas técnicas, com pesquisa, leitura, e na prática mesmo: errando, aprendendo e melhorando as pinturas ao longo dos anos”, conta.

Por gostar do que fazia, ela diz que sempre buscou trabalhos relacionados que a levassem a trabalhar na área e chegou a fazer artes digitais para agências de publicidade. Janaína conta ainda que foi criando o próprio estilo, mas como o ramo artístico é difícil precisou conciliar os desenhos e pinturas com outras atividades. “Quando comecei a faculdade de publicidade, minha intenção era trabalhar como designer, aí são artes digitais, que também tem ligação com o ramo artístico. Até que um dia um amigo meu que é tatuador perguntou se eu nunca tive vontade de começar na tatuagem, porque eu já tinha essa bagagem produzindo desenhos. A partir disso eu comecei a me interessar e descobri o estilo aquarelado que é relativamente novo, não faz muito tempo que esse estilo surgiu. A partir disso comecei a estudar, fazer workshops e depois a tatuar, foi tudo de forma bem natural. Eu digo que sem saber, eu fui treinando a minha vida toda para ser tatuadora hoje”, comenta.

Sobre o estilo aquarelado, Janaína explica que buscou o aperfeiçoamento porque já era o tipo de pintura que fazia no papel. Para trocar as telas por pele ela precisou descobrir técnicas. “Eu fui descobrindo formas de trazer o que eu fazia no papel para a pele da pessoa e com isso eu acabei indo para um caminho mais autoral, que é um tipo de trabalho dentro da tatuagem onde você usa mais criatividade, cria as artes originais e isso envolve todo um estudo para desenvolver o desenho e fazer a aplicação. Eu acabei descobrindo um estilo próprio, não seria só a aquarela, porque tem diversos estilos dentro da tatuagem aquarelada, então criei o meu próprio”, explica.

Ela diz ainda que o mais interessante é poder fazer algo bem pessoal para o cliente, mas que o autoral ainda não é bem entendido.  “O cliente vem até mim e às vezes vai trazer uma referência de imagem ou vai trazer uma ideia e a partir daquilo ali a gente conversa e eu vou criar uma imagem que é original e única para ele. Eu prefiro seguir essa linha, só que o conceito desse trabalho autoral não é bem entendido porque o costume das pessoas é chegar e escolher o desenho em uma revista de tatuagem. Ao longo dos anos isso foi mudando e hoje em dia eu vejo uma abertura muito maior”, esclarece.

Questionada sobre convenções, ela explica que já foi premiada, mas que não gosta de julgamento sobre a arte. “Participei de algumas convenções, consegui premiar na convenção internacional de Joinville que foi bem bacana porque tem tatuadores de outros lugares aqui do Brasil e de outros países competindo, consegui o segundo lugar nessa convenção e teve também uma convenção em São José, que fiquei em primeiro lugar. Eu gosto de participar de convenções, mas com o intuito de divulgação, divulgar trabalho, interagir com outros tatuadores, é uma troca muito legal, não que o foco seja de fato levar um prêmio. Não gosto muito da ideia da arte ser julgada. Não acredito que o fato de ter um prêmio ou não vá fazer você ser um bom profissional, bom tatuador”, comenta.

A mulher já ganhou muito espaços que antes eram comumente ocupados pelos homens, um deles é a tatuagem. “Eu vejo poucas tatuadoras participando desses eventos. Geralmente o ramo da tatuagem ainda é muito masculino, mas tem muita tatuadora boa que eu conheço e a maioria acaba não participando, então o fato de eu ter participado e conseguido os prêmios foi importante porque eu senti que eu estava ali abrindo um espaço que não é só meu, mas de outras tatuadoras também, que talvez se inspirem a participar mais e estar abrindo um espaço mais inclusivo pra gente nesse meio”, disse.

Inspiração

Quem acha que a tatuagem é uma fórmula pronta, se engana. Janaína é a prova de que é preciso estudar e muito para conseguir bons resultados. “Eu gosto de trazer referências de outras formas de arte para o meu trabalho, como o cinema, literatura, poesia, música. Uso muito isso como base e estudo para a criação dos desenhos que eu faço na tatuagem. Me inspiro bastante no surrealismo, arte contemporânea, arte clássica, estudo muito todas essas formas de arte e essa questão principalmente no surrealismo, que traz o inconsciente . Acho interessante poder criar algo que venha a partir do inconsciente da pessoa. Já desenvolvi tatuagem com base nos sonhos do cliente”, finaliza.