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Foto: Helena Marquardt

Reportagem: Helena Marquadrt/DAV

Tem dias que a gente nem consegue comer por causa do mau cheiro”. Esse é o desabafo do calceteiro Erivaldo Deucher, que assim como dezenas de moradores do Residencial Bela Vista, no bairro Barra do Trombudo, em Rio do Sul, precisam conviver há anos com problemas na tubulação e esgoto a céu aberto, situação que piora com a chegada do calor. No local, famílias de baixa renda tiveram que se acostumar à realidade de que o saneamento básico adequado ainda é um sonho distante para comunidades pobres.

O homem vive no local há cerca de 10 anos e conta que há muitos o mau cheiro, quase que insuportável, é presença diária e um vizinho incômodo. Segundo ele, a situação se agravou quando a tampa da caixa que recebe os dejetos das casas foi quebrada e desde então uma chapa de zinco faz papel adaptado, porém sem sucesso para evitar que o odor invada as residências trazendo mal estar e comprometendo a qualidade de vida de todos. “No verão o sol bate naquela tampa de zinco e não tem quem aguenta, tem dia que a gente nem almoça”, relata.

Erivaldo conta que uma empresa privada propôs transformar o residencial em um condomínio fechado e começar a resolver os problemas da tubulação, mas como as famílias pobres não teriam condição de pagar mensalidades o projeto não evolui. “Iriam cobrar R$ 120 reais inicial, mas a gente não aceitou porque aqui muita gente não tem condições de pagar esse valor”, lembra.

Ele diz que tem experiência como pedreiro e chegou a se oferecer para a prefeitura para doar a mão de obra para fazer uma nova tampa, mas não conseguiu nenhuma resposta. “Eu acho que quem deveria arrumar é a empresa que quebrou, mas fazer o quê? Eu me ofereci para fazer de graça, precisava apenas dos materiais como lajota, vigas e concreto usinado. O que queremos é resolver o problema porque é uma calamidade, também estamos brigando há muitos anos pela pavimentação da rua, mas nossa maior preocupação é mesmo essa fossa a céu aberto”, garante.

E foi graças à habilidade e disposição de Erivaldo que um outro problema da comunidade foi amenizado. Como a tubulação do condomínio não conseguia mais dar conta da demanda de dejetos, que acabavam entupindo os canos e voltando para dentro das casas, ele adaptou uma nova rede e ligou a caixa, diminuindo significativamente os episódios de casas invadidas pelo esgoto, mas o calceteiro diz que se preocupa também com a questão ambiental. “Esse esgoto da caixa acaba indo todo direto para o rio que fica aqui perto”, afirma.

Hamilton Meireles da Silva mora há cerca de 20 anos no Bela Vista e afirma que chegou a ter que construir uma espécie de mureta dentro de casa para impedir que o esgoto que voltava pelo ralo acabasse invadindo todos os cômodos. “Fiz um murinho para a água não passar porque sempre ia. Se a tubulação da fossa entope enche tudo, acumula e começa a vazar para dentro de casa”, conta.

Moradores precisaram se acostumar porque não tem para onde ir

Como as famílias que vivem no residencial são de baixa renda, não há muito o que fazer a não ser cobrar uma solução, aguardar e se acostumar com o mau cheiro. Inácia Dusmann, de 61 anos, mora há 17 anos no local e relata que precisa aceitar sua realidade, sem muita esperança de ter uma vida melhor e com um ar mais agradável. “A gente sente o mau cheiro, mas fazer o que se não temos onde morar? O jeito é deixar a casa bem aberta para tentar ter uma circulação de ar e se acostumar”, comenta a aposentada.

Caso acabou no Ministério Público

O presidente da Câmara de Vereadores de Rio do Sul, Marcos Norberto Zanis diz que tem cobrado providências urgentes, mas até agora nada foi resolvido. “Cobramos o projeto sanitarista para fazer o quanto antes porque parece que em 2017, a prefeitura teve que fazer uma devolução de R$ 800 mil em recursos do PAC por não ter esse projeto. Se passaram mais de quatro anos e ainda não há nem o projeto para ir atrás dos recursos, por isso nós informamos o Ministério Público e o Município já foi notificado”, cobrou.

A prefeitura de Rio do Sul foi procurada pela reportagem e através de sua assessoria de imprensa disse apenas que a Secretaria de Obras já faz manutenção constante daquele sistema e deve realizar uma vistoria em breve no local. No entanto, em matéria publicada em Novembro de 2020 pelo Jornal Diário do Alto Vale cobrando a solução do mesmo problema, o Executivo já havia dado exatamente a mesma resposta alegando que uma vistoria seria realizada na semana seguinte.