Alto Vale
Foto: Divulgação

Reportagem: Helena Marquardt e Rafaela Correa/DAV

A pernambucana Joyce Melo é bacharel em Direito e há algum tempo decidiu se dedicar a causas sociais. Pelo menos uma vez por mês ela distribui marmitas para moradores em situação de rua, em Recife. A história dela e de tantos outros voluntários acabou conectando-se com uma iniciativa que nasceu no Alto Vale do Itajaí, mas que virou exemplo para todo o Brasil e vem mostrando que sempre é tempo de fazer o bem.

Joyce integra o projeto Marmita Solidária que foi um dos beneficiados com a doação de máscaras face shield fabricadas graças a uma parceria de várias indústrias da região, que resolveram se unir para produzir os itens de proteção de forma conjunta e colaborativa. A ideia surgiu no Núcleo de Inovação da Associação Empresarial de Rio do Sul (Acirs), que percebeu a necessidade de concentrar esforços em torno de um único objetivo.

“Nos perguntamos, por que não conectar-se de fato em prol de uma iniciativa? De uma maneira muito rápida, via whatsapp, nós começamos a catalogar em Rio do Sul e cidades vizinhas, empresas e pessoas que tinham impressoras 3D em casa ou na empresa e no parque fabril. Catalogamos mais de 12 impressoras 3D. O movimento começou muito pequeno, mas várias impressoras passaram a ficar 24 horas por dia imprimindo parte da máscara e a outra parte que é o plástico, a gente comprava e customizava em uma outra empresa”, lembra o gestor de inovação da Acirs, Gabriel Borba Neto.

Numa indústria metalmecânica de Rio do Sul, a fábrica de protótipos que era usada para fazer o molde das peças, que mais tarde seriam fabricadas em aço, passou a utilizar as impressoras 3D para a confecção de uma parte das máscaras. “Se a gente já tinha a estrutura pronta, por que não ajudar o próximo? Acabamos correndo atrás, utilizando material, pegando o desenho para começarmos a imprimir e ajudar a área da Saúde”, afirma o analista de melhoria contínua, Diego Bini.

Além das empresas, mais tarde a fabricação também ganhou reforço com uma parceria da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), que possibilitou a produção em maior escala por meio da injeção termoplástica para o suporte da face shield. O molde foi desenvolvido pelo Instituto Senai de Inovação e a fabricação foi feita por empresas de Joinville. Ao todo a união das indústrias permitiu a confecção mais de três mil máscaras.

“Esse projeto só existe por conta das parcerias feitas através do associativismo. É um trabalho muito importante, que fez a diferença e serve de exemplo pela maneira rápida como foi executado”, salientou André Armin Odebrecht, vice-presidente da Fiesc para o Alto Vale do Itajaí.

As primeiras máscaras a ficarem prontas foram doadas ao Hospital Regional e auxiliaram profissionais da Saúde no momento mais crítico da pandemia. O médico Marcelo Gambetta destaca que o equipamento de proteção fez toda a diferença para a unidade. “Naquele momento em que recebemos as doações das máscaras, a aquisição delas no mercado estava extremamente difícil. A face shield foi e continua sendo um dispositivo de segurança de extrema importância para proteger os profissionais que entram em contato direto com o paciente com covid-19 ou com suspeita da doença, principalmente em momentos onde vai se mexer em vias aéreas, por exemplo, o momento da intubação que é de alto risco”.

Risco de contaminação que os voluntários do Projeto Marmita Solidária também corriam ao ter contato com os moradores em situação de rua, que na grande maioria não tinham acesso a condições adequadas de higiene e máscaras de proteção. “Recebemos essas máscaras no auge da pandemia. Devido à falta de proteção dos moradores de rua elas foram de extrema importância para proteger os nossos voluntários desde o ano passado até agora, para que pudéssemos dar continuidade a essa ação no momento em que eles mais necessitavam”, ressalta Joyce.

Gabriel completa dizendo que a iniciativa que beneficiou milhares de pessoas e ajudou a salvar vidas fica como aprendizado para o futuro. “Não apenas em tragédias, mas às vezes até para uma causa social, empreendedorismo, inovação. Que a gente possa fazer isso em várias mãos” disse.

“Esse é o lado bom da pandemia, se é que existe um, a solidariedade. As pessoas conseguiram juntar suas forças para auxiliar a equipe e as famílias que precisavam, fornecer equipamentos e materiais. Que a gente consiga tirar uma lição dessa situação que passamos, de que talvez isso possa ser feito sempre”, finaliza o médico Marcelo Gambetta.