Alto Vale
Foto ilustrativa/ Divulgação

Reportagem: Helena Marquardt/DAV

Em um quarto de hotel pago pela reportagem, sendo ameaçados de morte e sem saber como voltar para casa. Essa é a situação de três trabalhadores nordestinos que vieram para o Alto Vale para trabalhar na colheita de cebola em uma lavoura na localidade de Chapada Três Barras em Ituporanga, mas acabaram segundo eles numa situação de escravidão. Eles foram até a Polícia fazer boletim de ocorrência para denunciar o crime, mas foram informados que isso não era possível devido a pandemia.

Um dos trabalhadores, que preferiu não se identificar por medo, conta que a vaga de emprego e promessa de um “futuro melhor” foi oferecida por um homem, que garantiu que aqui no estado eles teriam direito a moradia, alimentação diária e conseguiriam um salário de cerca de R$ 3 mil por mês durante a safra. Eles aceitaram a proposta e embarcaram de ônibus para Santa Catarina com uma dívida de R$ 450,00 da passagem, valor que seria descontado já nos primeiros dias de serviço, no entanto ao chegar em Ituporanga a situação era bem diferente. “Falaram que a gente ganharia bem, que faria uns R$ 3 mil até o fim da safra, e que seria descontado apenas os R$ 450,00 da passagem, mas chegando era tudo diferente”, revela.

O homem conta que o ‘gato’ como é conhecido uma espécie de capataz que é responsável pela fiscalização do trabalho e pagamento dos trabalhadores passou a pagar menos do que o combinado e eles passaram a viver em situação análoga a escravidão. “Se alguém ficava doente eles nos cobravam R$ 30,00 a caixa de remédio para dor nas costas e se a gente não conseguisse trabalhar e ficasse dentro do alojamento tínhamos que pagar R$ 50,00 por dia pela estadia. Também tinha dias que não nos davam almoço”, afirma.

Outro trabalhador que também preferiu não se identificar relata que o alojamento de alguns dos colegas tinha condições precárias. “O teto caiu e ficaram na chuva e sem comida. Se os trabalhadores cobravam o pagamento eles enrolavam. Lá no local o ‘gato’ também vendia drogas para muitos trabalhadores para que eles ficassem sempre devendo. A gente trabalhava até sem equipamentos de proteção, se queria luva ou bota tinha que comprar e era descontado”, lembra.

Os homens afirmam que trabalhavam das 5h às 18h sem horário de descanso, muitas vezes de domingo a domingo, e eram ameaçados diariamente para não procurar as autoridades. “Nos faziam ameaças sempre para a gente não procurar a Polícia nem o Ministério do Trabalho”, conta.

Trabalhadores não conseguiram fazer Boletim de Ocorrência por pandemia

Cansados da situação os três trabalhadores resolveram fugir apenas com a roupa do corpo e procurar ajuda da reportagem. Eles também foram até a delegacia para fazer um Boletim de Ocorrência, mas foram informados que isso não seria possível no local em virtude da pandemia.

Recebendo pelo Whatsapp diversas ameaças de morte caso denunciassem a situação às autoridades eles procuraram também a Assistência Social de Rio do Sul para conseguir ajuda para voltar para casa, mas sem retorno, acabaram dormindo em um hotel pago pela reportagem e agora não sabem o que fazer.

Nos áudios, um dos envolvidos na situação de escravidão chega a afirmar que sabe onde as famílias dos homens moram e que eles irão se arrepender de ter fugido. “Estou com teu nome aqui e se você não pagar será estragado (morto). Sei onde você mora e tua família também. Você vai sofrer a pior do mundo e não vai esquecer nunca para largar de ser besta. Você vai ver o que vou fazer. É fácil acabarmos contigo e com tua família”, ameaçava o homem.

“Como se fosse um mercado de gente em pelo século XXI”

O frei Xavier Plassat, coordenador da campanha nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT) contra o trabalho escravo,  revela que é comum que trabalhadores, especialmente do Nordeste onde muitos vivem em situação de vulnerabilidade, sejam aliciados. “Muitos são enganados com falsas promessas que fizeram eles viajar do Nordeste para cá e chegam aqui a situação é completamente diferente. Infelizmente vai se repetindo de  novo em Ituporanga uma situação comum. Somente em julho e agosto contabilizamos através de informações oficiais, levantadas junto a polícia e fiscais do trabalho,   36 trabalhadores encontrados em condições análogas de escravos e foram retirados dessa situação em três ações que foram realizadas na cidade, então tem alguma coisa errada na conduta dos empregadores. Tem algo errado ao ter que ir buscar em estados como Ceará, Rio Grande do Norte, Maranhão, para literalmente vender esses trabalhadores  para empregadores dessa região como se fosse um mercado de gente em pelo século XXI. Gente que se aproveita de pessoas que estão em situação de vulnerabilidade em seus municípios de origem  e não tem acesso a terra e políticas públicas”, declarou.

Ele diz que de modo geral os trabalhadores que vivem em situação análoga a escravidão são afrodescendentes e que situações como as que vêm ocorrendo em Ituporanga são lamentáveis e precisam ser denunciadas. “Isso deveria nos lembrar tantos séculos de escravidão no Brasil e que ainda não conseguimos acabar com essa história. Temos uma campanha nacional desde 1997, ou seja quase desde que o Brasil tem uma Política Nacional de Combate ao Trabalho Escravo que iniciou em 1995, e não podemos continuar sendo a vergonha  não só do país , mas da própria comunidade internacional”, finaliza.