Alto Vale

A saúde pública no Brasil sempre provoca episódios lamentáveis e coloca o bem-estar dos membros de sua comunidade em xeque. São enormes filas e falta de leitos em hospitais, atendimento precário e até mesmo falta de remédios nas farmácias dos Municípios. Medicamentos esses, que por lei, são obrigatórios para tratamentos de doenças crônicas, como diabetes.

O tratamento mal conduzido desta enfermidade pode causar outros danos ao corpo do paciente, inclusive, a perda da visão. Este é o caso do jovem Moriel Silvano, morador de Trombudo Central. Com apenas 19 anos de idade, e trabalhando na venda de verduras e hortaliças que a família produz em seu terreno, ele sofre há alguns anos por não receber os medicamentos para seu tratamento periodicamente e, recentemente, não ganha nem a fita que utiliza para medição do nível de açúcar no sangue.

Moriel já está com a visão debilitada e não pode mais trabalhar na lavoura ou então dirigir para atender os clientes, enfraquecendo assim, as finanças da casa. Os recursos, que já eram limitados e destinados para a produção de tomates e outras culturas, estão cada vez menores. “O prejuízo que teremos por não aplicar os produtos corretos para o cultivo do tomate pode chegar a R$ 30 mil”, explica seu pai, Carlos Augusto Fuzon, que aplicou as economias da família no tratamento do filho.

Atualmente, a família busca angariar R$ 11 mil para sua cirurgia de catarata e, assim, receber uma injeção de esperança em sua recuperação. Além deste valor, ainda existe o custo mensal com os remédios, que mesmo após ação judicial, não estão sendo fornecidos na Unidade de Saúde de Trombudo Central. Segundo Carlos, a situação se arrasta sem solução: “Os advogados dizem que vem [o ressarcimento], disse que vinha em dezembro, nós já estamos em março e até agora nada. Por semana, são quase R$ 500 de remédio. Não estamos mais dando conta”, lamentou.

A expectativa é constante pela mudança neste quadro, pois toda a semana, ao procurarem a farmácia do município, eles ouvem que “na próxima semana está aí [o remédio]”. A família ainda diz que se sentiu esperançosa com a mudança de governo, mas, que hoje sente que a situação se manteve igual, sem apresentar melhoras aos doentes da cidade. “Fomos ao gabinete [na prefeitura] quantas e quantas vezes, isso aí não adianta mais perder tempo. Temos que fazer isso sozinhos”, concluiu.

Na mesma espera por uma solução do Poder Público se encontra a família do comerciante Thiago Noremberg. Sua esposa também sofre de diabetes e teve que procurar um emprego alternativo ao comércio do marido para ter dinheiro para arcar com o tratamento da doença. Thiago explica que é uma batalha pagar os medicamentos. “São pelo menos R$ 1.200 todo mês. Você olha a minha empresa e vê que eu não tenho condições de pagar tudo isso.

Agora, não temos como fugir, se não tomar a pessoa morre […] esse mês, por exemplo, das três caixas de fita que minha esposa usa, conseguimos apenas uma. O resto, na própria Unidade de Saúde eles falaram que a prefeita não comprou [os medicamentos]”, conta.

Os problemas com falta de remédios não se limitam à insulina e fitas de medição. Na manhã de ontem (30), a reportagem do Diário Alto Vale esteve na Unidade de Saúde de Trombudo Central e presenciou a negativa de funcionários do local quando questionados sobre alguns medicamentos para tratamento de doenças cardíacas e também artrose. Este último, segundo a atendente, teve o fornecimento interrompido devido à proibição de servir medicamentos manipulados ali, os demais, estariam realmente em falta.

A secretária de Saúde, Tânia Bini Azevedo Waltrick, comentou a situação em entrevista telefônica. Segundo a gestora, a situação deve ser analisada caso a caso, pois alguns medicamentos são fornecidos através de meio judicial, outros através do Estado e outros não constam na Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Remane). “É preciso ver a medicação exata, pois tem alguns casos que recebem do Estado, e o Estado não está mais enviando ultimamente. Nós estávamos também com falta das fitas para medição [do açúcar no sangue], mas elas chegaram segunda-feira e os pacientes foram avisados”, justificou Tânia.

Sobre a falta de envio dos medicamentos pelo Estado, a gestora diz que o procedimento adotado é entrar em contato e questionar a situação, e, após realizado este contato, a resposta foi que “este ano eles terceirizaram a entrega desta medicação e houveram problemas nessas terceirizações e os medicamentos não estavam chegando”, afirmou. Ainda segundo Tânia, a solução encontrada pela Saúde de Trombudo Central foi fazer uma escala, onde um mês alguns pacientes de diabetes recebem o remédio e outros não, prejudicando assim, o tratamento de quem sofre com a doença.

Airton Ramos