Segundo a Epagri, se os preços não melhorarem, o prejuízo pode ser ainda maior, de até R$400 milhões em todo o estado de Santa Catarina

Reportagem: Rafaela Correa/DAV

Ituporanga é conhecida como a capital nacional da cebola e em Santa Catarina é um dos municípios que mais produz o alimento. No entanto, nos últimos anos os produtores têm reclamado da baixa nos preços e do prejuízo.

Nas redes sociais, vários agricultores postam textos, fotos e vídeos na tentativa de chamar a atenção das autoridades para o tema e buscam ajuda para solucionar a situação e amenizar as dificuldades no escoamento da produção.  

O Jornal Diário do Alto Vale conversou com a produtora Gislaine Franz Hintemann, de 27 anos, que reside em Rio Engano, na cidade de Alfredo Wagner, município próximo a Ituporanga. Ela já trabalha com o cultivo há oito anos e relata diversos problemas, que vão do início ao fim da safra.

 “Já começa pela mão de obra escassa, um clima que pode atrapalhar, as doenças que atacam as lavouras, mas nos últimos dois anos, a maior dificuldade que a gente está enfrentando é o preço baixo para vender a cebola. Os preços pagos pela safra foram muito baixos, nem perto de pagar pelo custo de produção. Nós vendemos cebola por uma média de R$0,90”, relata.

Questionada sobre possíveis soluções ela fala sobre fiscalização, e incentivo para produtores. “Para amenizar, nós temos várias ideias: estabelecer um preço mínimo que não fosse abaixo do custo de produção, acabar com o negócio de pagar metade na ‘segundinha’ e metade na Caixa 4 como ocorreu esse ano.  Também seria importante a fiscalização para que o descarte não vá parar no mercado. Os agricultores querem a volta do Proagro, que era uma garantia em caso de perdas, pelo menos pagava o custo”, observa.

Outra produtora, Eloisa Feiber, de 27 anos, que reside em Chapadão do Lageado, também lamenta a situação vivida na safra. “A situação é desesperadora. A conta não fecha. É um prejuízo direto, não paga nem os insumos. O que torna tudo pior é que quem plantava fumo, nos anos anteriores, conseguia tampar o buraco da cebola, mas esse ano o fumo também teve uma queda nos preços. O agricultor está sem saída, não tem de onde tirar, nem do fumo e nem da cebola. É um rastro de dívidas. Precisamos que as autoridades olhem para a agricultura com urgência. Estamos pagando para trabalhar e acumulando dívidas para pagar”, desabafa. 

Para produzir um quilo de cebola o custo gira em torno de R$1,30, é o que afirma o extensionista rural da Epagri, Daniel Rogério Schmitt. Qualquer valor pago abaixo disso significa prejuízo.

Em Santa Catarina, as perdas chegam a R$ 15 mil por hectare. Considerando mais de 20 mil hectares plantados, o prejuízo pode atingir R$ 300 milhões.

Ele explica ainda que cerca de 40% da safra não foi comercializada. A expectativa é de melhora nos preços, mas, caso isso não ocorra, o cenário pode piorar. “Caso não melhorar, o prejuízo pode ser de até R$20 mil por hectare, totalizando um rombo ainda maior, de R$400 milhões em todo o estado”, detalha.

Ele também explica que a crise se deu por uma série de fatores e que os preços baixos já se estendem desde 2024. Além disso, a crise enfrentada não se resume apenas ao estado de Santa Catarina.  “Tivemos preços baixos desde agosto de 2024, passamos 2025 inteiro com preço baixo, todas as regiões produtoras do Brasil estão sofrendo com a situação. Isso aconteceu porque temos um consumo de cebola relativamente estagnado no Brasil, a média de consumo por pessoa é de 6 a 7 quilos ao ano e o preço baixo da cebola não estimula o consumo, já que ninguém consome mais cebola por estar barata, e com isso a crise se alonga porque temos uma superprodução. Especialmente Minas Gerais e Santa Catarina, na região de Ituporanga, produziram muito”, comenta.

Daniel destaca que a produtividade foi superior ao esperado. A estimativa inicial era de 31 toneladas por hectare, mas chegou a 35. A produção estadual deve atingir cerca de 610 mil toneladas, um recorde.

Além disso, outros estados, como Minas Gerais, já registravam excesso de oferta antes do início da comercialização em Santa Catarina, o que teria pressionado ainda mais os preços.

O extensionista acrescenta que, mesmo com preços baixos, alguns produtores ampliaram a área plantada para tentar compensar perdas anteriores, enquanto outros migraram para a cultura da cebola, agravando o cenário.

Em busca de soluções

Desde o início do ano, o tema vem sendo discutido com autoridades. “Tivemos reunião com a Aprocesc, em janeiro, e foi levada essa situação para as autoridades. Foi uma reunião bem completa com a participação do Governo Federal, MAPA, MDA, pessoal da área bancária e produtores também.  O governo do estado deve preparar alguma política de apoio para a próxima safra, algum crédito especial, financiamento, ou juros baixos, que ainda vai ser estudado”, completa Daniel.

O presidente da Associação dos Produtores de Cebola de Santa Catarina (Aprocesc) e vereador Jorge Sardo também explicou algumas possibilidades apontadas durante a Audiência Pública proposta pela comissão de Agricultura e Desenvolvimento Rural, através dos deputados Altair Silva e Mario Motta, em Ituporanga.  “Discutimos alguns temas como a prorrogação dos custeios agrícolas que já estão acontecendo. Em janeiro, no dia 23, nós tivemos assembleia da Aprocesc e isso já foi um tema levantado e desde lá o governo já liberou a prorrogação dos custeios para os agricultores”, revela.

Ele ainda comenta que houve uma pequena melhora nos preços algum tempo atrás, mas que em razão da importação do produto, os preços caíram novamente. “A ideia era criar alguns dispositivos para barrar, tendo em vista que nós temos uma supersafra e estamos vendendo abaixo do preço de produção, não necessitaria entrar cebola importada”, afirma.

Além disso, como citado pela produtora Gislaine nesta reportagem, Jorge também destaca a importância do descarte correto da cebola e de uma suposta inviabilidade da exportação em razão de burocracia. “Em um ano de superprodução nós poderíamos escoar o nosso produto e valorizar, mas tivemos relatos de cerealistas que tentaram exportar cebola e a burocracia é muito grande, o que inviabiliza esse tipo de exportação. O produtor teria que doar a cebola para conseguir exportar e competir com o mercado. Outro ponto importante é o descarte da cebola que precisa ser feito corretamente para tentar tirar ela do mercado. Essa comercialização impede a venda da cebola boa”, explica.

Jorge ainda destaca que durante a Audiência Pública realizada no início da semana, foram solicitadas campanhas de divulgação e valorização da cebola, tendo em vista que o Governo dispõe de recursos para mídias.  “De concreto ainda não tivemos nada, foi uma audiência, fomos ouvidos e agora nós aguardamos pelo trabalho dos deputados e soluções para o que foi discutido”, ressalta.

Propostas na Alesc

Para o deputado Mário Motta (PSD), a combinação entre superprodução, dificuldades de mercado e importações no período de pico agravou a crise. Ele destaca que a qualidade da cebola catarinense nunca foi tão alta, mas que duas safras consecutivas com preços baixos comprometem a capacidade de recuperação financeira dos agricultores. Entre as alternativas debatidas estão linhas de crédito com juros reduzidos, renegociação de dívidas e incentivo à diversificação produtiva.

“Precisamos encontrar alternativas que passam desde a diminuição de juros, empréstimos que possam cobrir os prejuízos atuais com prazos e com subsídios, quem sabe, dos próprios governos e políticas públicas que direcionem a região, quem sabe para não só a monocultura da cebola, mas encontrar outras alternativas para futuro.”, comenta o deputado.

Para o presidente da Comissão de Agricultura, deputado Altair Silva (PP), a crise exige respostas estruturantes. “Tivemos um verão com boas chuvas e uma altíssima produtividade, somada à produção de outras regiões do país. Quando há muita oferta ao mesmo tempo, os preços caem. Em poucos dias a cebola saiu de 60 centavos para dois reais, reagiu com as chuvas em Minas Gerais, mas voltou a cair para cerca de R$ 1,50. Precisamos avançar na tecnologia de armazenagem para que o produtor consiga segurar o produto e vender de forma escalonada, praticando preços médios mais equilibrados”, afirma.

O parlamentar também fala da necessidade de padronização na classificação da cebola, apontando que divergências nos critérios de medição do tamanho do produto acabam prejudicando o agricultor no momento da comercialização.

“Produzir com qualidade nós sabemos. Agora precisamos criar políticas sólidas, com financiamento e juros acessíveis, para investir em armazenagem e renegociar as dívidas dos produtores”, completa.

Já o deputado Oscar Gutz (PL) ampliou o debate para o cenário mais amplo do setor agropecuário. “Não é só a cebola. O leite, o arroz e várias outras culturas também enfrentam dificuldades. O excesso de produção e a falta de políticas adequadas colocam o agricultor em uma situação de risco. Se continuar assim, muitos não conseguirão permanecer na atividade”, alerta.

O prefeito de Ituporanga, Geison Kurtz, enfatizou que os produtores vivem uma fase difícil e que isso impacta o sustento de muitas famílias.  “Estamos vivendo um momento muito delicado na nossa agricultura, especialmente na cadeia produtiva da cebola, que é a base da economia de Ituporanga. Hoje o produtor está enfrentando uma situação muito difícil, com o preço da cebola abaixo do custo de produção, o que gera prejuízos e preocupa muitas famílias do nosso município e de toda a região. Por isso, a Prefeitura decretou emergência econômica e queremos buscar apoio junto aos governos e às instituições para enfrentar essa crise”, finaliza.

Fotos: Rodrigo Corrêa/ Alesc